Verdade em Correspondência

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Pretendo por meio deste texto, expressar minhas concepções de verdade, coisa-factual e conceituação, tal como o modo como vejo a relação entre tais coisas.

Primeiramente, cabe a mim definir os termos que serão utilizados dentro dessa reflexão, e são eles:

Coisa-Fato/Objeto-Factual: Se refere a toda “coisa”, coisa essa que se expressa no mundo, que pode ser expressa tanto como conceito, quanto como física, dissertarei mais sobre isso no texto em si.

Verdade: O conceito de verdade nesse texto, se refere exclusivamente a proposições que correspondem aos fatos do mundo, ou seja, a afirmações que podem ser verificadas no mundo físico (exemplos: essa maçã é vermelha, esse objeto é cubico, o planeta é esférico) [Quando for especificado o termo física, considere-o como uma conceituação objetiva e descritiva de modo físico, como átomos, elétrons, prótons, etc.]

Conceituação: Aqui se instaura tal como expressões de abstração da consciência, tal como quando fazemos asserções, ou pensamos em algo, ou definimos algo linguisticamente, exemplos: Maçã, Pedra, Circulo, Viscoso, Pegajoso, Amigável, etc.) .

Partindo disso, definições específicas, porém não menos verdadeiras, podemos começar a compreender essa visão.

Agora, voltemos a questão do que é uma coisa-fato, ou objeto-factual, chame como preferir.

Um objeto-factual, em essência, é aquele tal que pode ser tanto conceituado, quando objetificado fisicamente, caso isso não tenha ficado claro, o objeto em questão que se propõe a ser factual, deve ser tanto convertível de conceito-física, quanto de física-conceito, quanto descritível de ambos os modos solitariamente.

Vamos pensar em um exemplo, para ilustrar a questão:

Digamos que, estou observando uma maçã, agora, o que torna essa maçã uma coisa-fato/objeto-factual?

Bom, primeiramente, podemos descrever essa maçã de modo puramente conceitual, como por exemplo, o próprio termo maçã, a cor vermelha que apresenta, a firmeza que tem, a forma que observo, etc…

Passando disso, também poderemos descrevê-la de modo físico, um agrupamento organizado de moléculas, que por sua vez, são formadas por um esmagador aglomerado de átomos, que são formados de elétrons, prótons e nêutrons (provavelmente alguns bilhões ou trilhões deles), que são formados (os elétrons sem estruturas internas), de quarks, gluôns, etc., e sua cor, com comprimentos de onda que se dão próximos a 650 nanômetros, com frequências de aproximadamente 450 terahertz.

Como pudemos ver, a maçã, um objeto-factual, pode ser descrita individualmente, tanto de maneira física, quanto de maneira meramente conceitual, agora, o que mais pode ser feito disso?

Bom, agora também podemos notar que, quando nos referimos ao objeto conceitual ‘maçã’, estamos falando também do objeto composto dos inúmeros átomos, moléculas, prótons, nêutrons, elétrons, etc.

E também que, quando nos referimos a esses inúmeros átomos, moléculas, prótons, neutros, elétrons, quarks, gluôns, etc, com determinada forma de organização entre si, visíveis aos olhos humanos (considerando um cérebro ‘normal’, obviamente) de certa maneira, e com certas características percebidas, que outros aglomerados de partículas não apresentam a nós, estamos nos referindo a uma maçã, um objeto relativamente esférico com um sabor adocicado, uma solidez agradável, e uma cor vermelha (bem mais simples não?).

Ou seja, o objeto-factual em questão, pode ser tanto descrito individualmente de um modo cientifico, físico, quanto de um modo conceitual, e que também pode ser convertido de ambos os modos (físico-conceitual, conceitual-físico).

Essa é uma verdade que não contém exceção, qualquer que seja a coisa, tal que essa coisa exista fisicamente, e possa ser descrita em termos físicos e conceituais, mesmo que limitados, como no caso de, imaginemos quando não se existiam conceitos físicos complexos, mesmo nesses tempos essas ‘coisas’ ainda existiam objetivamente, e poderiam-se ao menos serem imaginadas as características dos objetos em um campo físico, mesmo que não diretamente o fosse, ou mesmo que, imaginemos descobrir um objeto totalmente novo no universo, que não poderia ainda ser descrito de modo conceitual algum além de meros termos físicos, esse objeto ainda seria conceitualmente um ‘objeto’, ainda seria uma ‘coisa’, ainda seria descritível de algum modo, mesmo que, como citado, fosse completamente abstrato.

Agora que podemos enxergar o que apresentei, podemos também fazer alguns exercícios de pensamento, para colocar em cheque tal teoria, como por exemplo imaginar uma maçã, tal que essa maçã já não seja mais um objeto físico, como por exemplo, quando se desfez por conta do tempo e da deterioração, ou que tenha sido destruída, em uma explosão, por exemplo.

Ainda assim, eficientemente podemos dizer que, um dia, mesmo que por um curto momento, o conceito a qual nos referimos foi algo físico, definitivamente teve seu momento de existência, mas não o tem mais, agora não é mais um objeto-factual, é apenas um objeto conceitual.

E quando pensamos na descrição física desse objeto conceitual, ainda é perfeitamente possível, não? O leitor atento, ou o crítico perverso pode perguntar, e, bom, cabe a essa pergunta uma reflexão.

Quando imaginamos o objeto a que nos referimos, estamos falando especificamente do mesmo como um conceito (por isso descrito como objeto conceitual), e quando pensamos nas características desse objeto, não estamos pensando nas características que ele detém agora, pois ele não mais é um objeto objetivável no mundo, mas sim no objeto quanto objeto-factual, quanto fato do mundo.

Ou seja, não estamos mais pensando no objeto conceitual, mas no factual, que não mais existe, mas que um dia existiu. Para confirmar que não se trata mais do mesmo objeto, basta que encontremos dele os múltiplos átomos que o compunham, agora separados ao longo do mundo, e tentemos disso comparar a nossa prévia descrição física, o resultado será que, embora ainda sejam milhões e milhões de átomos, moléculas e partículas no mundo, não mais possuem o nível de organização e formulação que antes possuíam, não mais podem ser distinguidos de outras coisas.

Então, e quando pensarmos em uma maçã qualquer, uma que não seja a específica a qual nos referíamos antes, vamos chamá-la de maçã ideal, ainda podemos pensar nas características físicas da mesma?

Evidente que podemos pensar em características físicas para a maçã, mas tais características não dela seriam, elas seriam características de outras maçãs que vimos antes, ou que antes foram estudadas, e não propriedades desse objeto conceitual ideal elas seriam, o objeto ideal, não existe como objeto-factual, apenas pode ser descrito em relação com outros assim.

Agora que vimos o modo geral dessa concepção, vamos pensar no que falo, quando trato de verdade, em implicações de conceitos, em soluções a elas, e em formas de demonstrar que conceitos são sólidos o bastante para produzir de fato verdades.

Quando falamos de verdade, não estamos restringindo elas a terem um corpo que se refere a apenas o físico, ou a um corpo que se refere a apenas o conceitual, ainda que, em essência, elas estejam apenas referenciando o físico.

Irei tornar tal explicação mais simples, através de alguns exemplos.

Imagine que exista uma maçã, tal que essa maçã é vermelha, e a proposição com pretensões de ser verdadeira em questão é ‘Esta maçã é vermelha’, como podemos dizer efetivamente que essa maçã é vermelha?

Ora, o conteúdo da mesma corresponde a descrição conceitual dada ao objeto-factual maçã, ou seja, a proposição está de acordo com a descrição dada ao objeto, e portanto, é verdadeira.

Um outro exemplo seria, imaginemos que exista um aglomerado de partículas, que reflete um raio de luz com cerca de 650 nanômetros, e a proposição em questão é ‘o raio de luz refletido possui cerca de 650 nanômetros’, aqui se torna mais claro que a proposição corresponde, tal como a anterior, aos fatos apresentados.

O critico ávido poderá também se questionar que, enquanto os conceitos físicos são mensurados objetivamente, por se referirem da forma como eles são, aos fatos físicos, as expressões conceituais não possuem a mesma força, pois são aferidos por meio de linguagens, e não podem ser objetivamente classificados como correspondentes as explicações físicas, sem que seja antes pressuposto que o sejam, e que como a linguagem é algo que é, essencialmente, produto de consenso coletivo, a verdade produzida pelas asserções seria também moldada pela linguagem em questão, e não pela correspondência real aos fatos do mundo.

A esses críticos, no entanto, responderei com a seguinte observação:

Tomando que a linguagem é produto de um consenso coletivo, e que a verdade apenas pode ser epistemologicamente criada, a nível linguístico, tomamos também que, a linguagem, como produto de consenso coletivo, não poderia se estabelecer sem uma prévia formulação, ou seja, por meio de um conjunto de falantes que estabeleceram-na, e a utilizaram, e a deram significação.

Sendo assim, em algum momento, no momento em que os conceitos foram formados, ou o momento em que foram atualizados, os mesmos se referiam a coisas que necessitavam de ser conceituadas, como por exemplo, quando os olhos daqueles que criaram o conceito de vermelho viam uma reflexão da onda de luz com comprimento de onda de aproximadamente 650 nm, e relacionavam essa percepção a palavra ‘vermelho’, conceituavam o vermelho, e o firmavam como elemento da linguagem.

Ora, vemos então que, mesmo os conceitos abstratos aos quais nos referimos podem, em alguma instância, objetivamente se referirem aos fatos fisicamente explicáveis do mundo, e que portanto carregam em si apenas uma abstração de referência para com eles, possuem portanto, igual valor verdade em uma asserção.

Agora, o crítico pode também apelar a coisas como, por exemplo, deficiências visuais, como o daltonismo, embora seja uma crítica interessante, é falha em relação a questão anteriormente apresentada.

“Como assim?”, pode perguntar o leitor.

Ora, se a linguagem é produto de consenso, e os consensos são essencialmente a visão de uma maioria, então a definição de vermelho, ainda que dita por um daltônico, iria se referir a uma onda de luz de comprimento aproximado de 650 nanômetros, pois assim foi estabelecido conceitualmente.

E digamos então que, a pessoa em questão, possa por exemplo, ver a cor vermelha (assumindo o ‘ver [cor]’ como ter a mesma experiência que uma pessoa normal teria ao ver a cor na questão especificada), no lugar de onde normalmente se veria o verde, e o verde, no lugar de onde se veria o vermelho, e que tivesse sido ensinada por um grupo de outras pessoas com o mesmo problema, que conceituaram as cores dessa forma invertida.

Ora, mesmo nesse caso, ainda assim o conceito de vermelho se referiria a uma forma de onda de luz, dessa vez com comprimento aproximado de 530 nanômetros, tal como agora a cor verde, para essas pessoas, se refeririam a uma onda de luz com comprimento aproximado de 650 nanômetros.

E então, o que ocorreria se tais pessoas se encontrassem com as pessoas sem problema algum de visão, e que enxergam as cores do modo como foi inicialmente apresentado, nesse caso não mais elas corresponderiam aos fatos do mundo?

Ora, obviamente não, o que existiria nessa situação, é parecido com uma situação em que um alemão e um brasileiro (ou português), estivessem tentando aferir verdades sobre a cor de um objeto, o brasileiro diria verde, e o alemão grün.

Mesmo nessa situação os termos não deixariam de se referir ao mesmo espectro de cor, eles apenas não teriam a mesma compatibilidade, e não estariam sendo corretamente referenciados.

Tomemos então que, a solução de tal problema, é que o alemão concorde em chamar a cor que vê de verde (ou o brasileiro de grün), para assim aferirem uma verdade de fato.

Tal pode ser também feito com os que possuem uma visão danificada, e chamam o que seria para nós vermelho de verde, e vice-versa, isso tudo poderia ser resolvido apenas observando os aspectos físicos do termo, ou mesmo realizando outro consenso, mesmo que provisório, em relação as definições dos termos utilizados e suas correspondências aos fatos físicos do mundo.

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