Valor-marginal sobre uma perspectiva praxeológica

Vinicius Waltrick
viniciuswfwf@hotmail.com

É perceptível que a teoria do valor-marginal é a teoria econômica mais capaz de explicar a formação de preços no mercado, sendo ela um dos alicercs para a derivação de outros teoremas econômicos. Se nós não conhecêssemos tal fenômeno econômico, jamais poderíamos especular com exatidão acerca da forma pela qual os preços das mercadorias são formados e pela qual os produtos são alocados nas relações de mercado. A teoria do valor-marginal está no mesmo nível da lei de Say, pois esta última também é utilizada de base para entender os fenômenos monetários.

Mas. o que seria o valor-marginal? Em suma, seria uma teoria econômica que especula que o valor de um bem é igual sua utilidade somada à sua escassez. Ela explica com eficácia, certos problemas do valor-utilidade e do valor-trabalho. Um dos problemas identificados na teoria é que o valor vinha apenas da utilidade de um bem. Também era o problema da água e do diamante – teorema bem conhecido, aponta que não faz sentido o diamante ter um valor maior que água, pois não possui igual utilidade.

A teoria do valor-marginal apontou uma solução para tal questão, de que o valor não vinha só da utilidade de um bem, mas também de sua escassez. O diamante tem uma escassez muito maior que a água, então, embora ele não tenha a mesma utilidade, ele acaba por ter um valor de mercado maior devido a sua maior escassez. Entretanto, essa exposição da teoria fica muito simplista, pois carece de uma fundamentação epistêmica adequada. Por esse motivo, o economista austríaco Ludwig Von Mises usou do método praxiológico para deduzir, não só o valor-marginal, mas também todos os outros teoremas econômicos. E é isso o que veremos a seguir.

1. O valor enquanto preferência praxeológica

Mises argumentava que toda ação é o ato de suprir um estado de insatisfação por um estado de maior satisfação. Com isso, ele concluiu que o valor é o ato de preferir “A” em relação à “B”. Por exemplo; se eu preferir gastar meus recursos comprando um celular ao invés de um computador, quer dizer que o celular tem um maior valor para mim a um computador. Nessa mesma situação, se o celular possui preço “X”, e se escolhi pagar aquele preço pelo celular, então eu dou um maior valor para o celular do que para a quantidade monetária X que eu possuía.

“O objetivo imediato da ação é frequentemente a aquisição de um suprimento de coisas tangíveis, contáveis e mensuráveis. Assim sendo, o agente homem tem de escolher entre quantidades contáveis; prefere, por exemplo, 15r a 7p; mas se tivesse de escolher entre 15r e 8p, poderia preferir 8p. Podemos enunciar esta situação dizendo que o agente homem atribui a 15r um valor menor do que 8p e maior do que 7p. Isto equivale à constatação de que prefere A a B e B a C. A substituição de 8p por A, de 15r por B e de 7p por C não altera o significado da constatação feita nem o fato que ela descreve. Isto certamente não torna possível o cálculo com utilização de números cardinais.”

– Ludwig Von Mises, Ação Humana, capítulo 11, A gradação dos meios

Nesse trecho, Mises demonstra sua concepção de valor usando esses exemplos, onde o valor sempre é o ato de escolha entre “A” ou “B”, ou seja, é uma ação – a decisão entre um estado de conforto em detrimento de um estado de desconforto. Sendo assim, o ato de valorar é uma ação feita a partir de preferências subjetivas, o que torna o valor um fator subjetivo. Ainda nesta paráfrase, Mises ressalta que, por esse motivo não há como quantificar o valor de maneira objetiva, e então efetuar alguma forma de cálculo partindo disso.

Um fato que pode complementar esse ponto anterior do Mises é de que toda ação é uma relação de qualidades, ou seja, de preferências entre os melhores meios que possam tirar o agente Homem de seu estado de desconforto e o levar para seu estado mais confortável. Nesse aspecto, o Homem dá valor aos bens conforme um fator qualitativo, onde os bens que melhor farão o agente Homem atingir seus fins serão os bens com maior valor.

Com esses fatores, não haveria como traçar um parâmetro objetivo para o valor, pois ele sempre se dá de maneira subjetiva conforme os fins que levam o Homem a agir.

1.1- É possível o agente Homem preferir o que há de menor valor para ele?

Essa pergunta é bastante interessante, seria possível o Homem agir em prol daquilo que ele menos valorou? Para responder essa questão, é interessante analisar a estrutura praxeológica da ação humana. Como reforcei anteriormente, a ação é o ato de suprir um estado de desconforto por um estado mais confortável. O Homem dá mais valor aos bens que melhor farão ele atingir seus fins, nesse aspecto dizer que o Homem pode preferir algo que ele não dá tanto valor em relação aquilo que realmente tem valor é dizer que o Homem pode escolher seu estado de desconforto em detrimento de seu estado de conforto. Entretanto, isso é contraditório com os termos praxeológicos, ora, o estado de desconforto é, em essência, o estado que o Homem quer suprir; já o estado de conforto é todo aquele que consegue suprir o desconforto. Ou seja, o Homem não pode agir visando seu estado de desconforto, pois isso seria contraditório, é o mesmo que dizer que é o caso que o agente Homem quer ficar no estado em que o mesmo não quer ficar.

Acredito que o erro aqui é justamente tratar “desconforto” em termos mais comuns, como dor física, por exemplo. Acreditar que um masoquista age de maneira ilógica. Entretanto, um masoquista não é aquele que prefere seu estado de desconforto, e sim, aquele que vê seu conforto naquilo que é desagradável para o resto dos indivíduos.

2- Utilidade, escassez e o fator trabalho

Mas, como a perspectiva praxiológica pode explicar o valor-marginal? Por exemplo, que o valor de um bem está inteiramente ligado à sua utilidade e escassez? É o que veremos a seguir.

Primeiramente, o que é a utilidade de um bem? Utilidade seria, nada mais e nada menos que o nexo causal que o indivíduo tem com aquele determinado bem. Por exemplo, o indivíduo vê utilidade na água na medida em que ela é útil para suprir a sede, ou seja, a causa da utilização dela é a satisfação de uma necessidade.

Então, o suprimento da sede é o nexo causal que o Homem tem com água, ou seja, essa é a utilidade dela. Quando um bem consegue suprir mais necessidades do que outros (i.e., quanto maior for seu nexo causal), mais útil aquele bem se torna com relação aos outros. Há também o fator da qualidade que tem influência sobre a utilidade de um bem; quanto maior for a eficiência de um bem em atingir determinados fins, mais qualidade ele possui em relação aos outros bens com os mesmos fins e mais utilidade ele ganha.

Já a escassez, seria a quantidade de meios para que um bem necessita para ser obtido; quanto maior a escassez de um bem, maior será a quantidade de meios necessários para se obter aquele bem. O ouro e o diamante de tornam mais escassos que a água na medida em que é necessário despender muito mais recursos para se obter o ouro e o diamante à água. Em suma, a escassez de um produto é sempre expressa na dificuldade que um indivíduo tem em obtê-lo.

2.1- O trabalho enquanto meio

O trabalho é o principal meio que o Homem utiliza para atingir qualquer fim; é capacidade física que um ser possui de manipular recursos que estão a sua disposição e tornar tais recursos novos meios para se atingir fins. Se o Homem não tivesse a capacidade física de trabalhar, não seria capaz de manipular recursos em sua volta e então agir usando de tais meios para atingir fins.

O trabalho é escasso na medida em que ele está limitado pela oferta de tempo e energia oferecidos ao agente Homem. Se o trabalho não fosse limitado por tais fatores, i.e., se fosse possível trabalhar sem consumir tempo e energia, o agente Homem poderia conseguir todos os seus meios e alcançar todos os seus fins de maneira instantânea. Porém, esse não é o caso. O trabalho demanda uma determinada quantidade de tempo e energia; por demandar de tais meios, o trabalho se torna, assim como todo recurso, escasso.

2.2- A escassez e a utilidade como determinantes do valor

Agora, se o valor é uma preferência de um bem X em relação a Y, por que tal relação de escolha não é feita somente para bens de suma importância? Por que os indivíduos tendem a dar mais valor para o ouro ou o diamante do que a água? A água, por ter mais utilidade do que estes outros recursos, não era para ter mais valor?

Como bem expliquei no início, a utilidade não é o único fator que determina o valor de um bem, há também a escassez. O ouro, embora não tão útil quanto a água, ainda tem sua utilidade industrial e uma escassez muito maior do que a da água, o que torna seu valor maior. Mas, como conciliar isso com a praxiológica? Por que os indivíduos tendem a preferir aquilo que é mais escasso em detrimento do que não é tão escasso?

Para responder essa pergunta, é necessário voltar a analisar o conceito praxiológico de escassez: como defini acima, a escassez de um bem é a quantidade de meios que devem ser despendidos para obtê-lo. Nesse sentido, quando um indivíduo despende X horas de trabalho e Y recursos para obter um produto final Z, então quer dizer que o indivíduo dá maios valor a Z do que as X horas de trabalho e os Y recursos.

Isso quer dizer que quanto maior for a quantidade de meios despendidos para conseguir determinado produto final, maior será o valor daquele produto final, pois maior foi minha preferência naquele produto. Por exemplo, se eu despender meses de trabalho e gastar uma grande quantidade de dinheiro em unidades de mineração para conseguir dezessete quilos de ouro, então quer dizer que eu dou um maior valor aqueles 17 quilos de ouro do que todos os recursos e trabalho que despendi para consegui-lo.

Entretanto, com a água não é a mesma coisa, é necessário bem menos tempo e recursos para consegui-la, i.e., é necessário menos trabalho. Isso torna o valor da água menor, o agente Homem, por despender menos meios na água, acaba por criar uma preferência de se abster de poucas horas de trabalho e de alguns poucos recursos para conseguir X litros d’água, ou seja, o valor da água é um pouco maior do que aqueles meios despendidos em sua busca; agora, no caso do ouro, a história é outra, pois foi necessário muito mais horas e muito mais meios para se obtê-lo do que no caso da água, dessa forma, o valor do ouro se torna maior do que todos aqueles meses de trabalho e todos aqueles meios despendidos em sua busca.

Em suma, quanto maior for a demanda de meios para o cumprimento de uma ação, mais valor terá seus fins (pois maior foi a preferência do indivíduo em gastos com aquele fim). Se um determinado fim demanda por mais meios que outro, então, logicamente, tal fim terá maior valor que o outro (pois a preferência em tal fim é maior do que a preferência no outro).

2.3- O trabalho define o valor?

Se o trabalho pode ser definido como a capacidade física que o agente Homem possui de alocar meios para se obter fins, e se o valor é a preferência entre A em detrimento de B, então a resposta é não. O valor não é definido, de forma alguma pelo trabalho, o que define o valor é justamente a preferência subjetiva do indivíduo entre um estado ou bens A em detrimento de estado ou bens B. Se um indivíduo prefere poupar seu trabalho em detrimento de um determinado bem, então quer dizer que ele dá maior valor ao seu trabalho do que a esse determinado bem (e vice-versa).

Desta forma, não seria o trabalho que determina o valor, e sim, o valor que determina o trabalho. Quando um indivíduo prefere empregar seu trabalho em um bem, quer dizer que ele dá maior valor ao bem do que aquele trabalho empregado.

3- Os bens econômicos e não-econômicos

Para que algo seja um bem, esse algo deve ser: a) praxiologicamente manipulável, i.e., pode ser usado como meio para se atingir um fim (sem alguma limitação física que impeça isso); e b) tem que possuir alguma utilidade, ou seja, o agente Homem deve encontrar algum nexo causal naquele bem (como, por exemplo, a água, onde sua utilidade está na hidratação do corpo, este seria o nexo causal e a utilidade dela);

Carl Menger tratava disso em sua obra “Princípios de Economia Política”. Segundo ele, algo só se torna um bem na medida que cumpre estes quatro requisitos:

1. A existência de uma necessidade humana.

2. Que a coisa possua qualidades tais que a tornem apta a ser colocada em nexo causal com a satisfação da referida necessidade.

3. O reconhecimento, por parte do homem, desse nexo causal entre a referida coisa e a satisfação da respectiva necessidade.

4. O homem poder dispor dessa coisa, de modo a poder utilizá-la efetivamente para satisfazer à referida necessidade.”

– Carl Menger, Princípios de Economia Política, capítulo 1, A natureza dos bens

Mas o que torna um bem econômico ou não-econômico? Em suma, um bem só é um bem econômico na medida em que seu fornecimento seja menor que a quantidade desejada pelo agente Homem. Por exemplo, imagine uma aldeia onde o fornecimento de madeira seja praticamente inesgotável, pois há uma imensa floresta ao seu redor. Entretanto, o fornecimento de ferro e trabalho seja limitado por condições físicas – no caso do ferro, seu fornecimento é limitado pelo fato do ferro se encontrar embaixo da superfície, sendo necessário horas de escavação para se obtê-lo; já no caso do trabalho, ele teria seu fornecimento baixo em relação a quantidade desejada pelo Homem devido ao fato do trabalho demandar energia e tempo. Nessas condições, imagine que os indivíduos necessitem de mais casas em usa aldeia, onde, para cada casa, fosse necessário 10p de metal e 100q de árvores para construí-la. As árvores seriam bens de terceira ordem (bens de capital), sendo que elas são a matéria prima para a madeira, que seria o bem de segunda ordem (já a casa seria o bem de primeira ordem, ou bens de consumo).

As árvores, embora bens de terceira ordem, não podem ser classificadas como bens econômicos, pois o fornecimento delas é muito maior do que os 100q demandados por cada casa. Dessa forma, o fornecimento em excesso de um bem tira seu caráter econômico, pois não seria necessário dispender nenhum outro bem para se obtê-lo. O ferro, por exemplo, é um bem econômico na medida em que a quantidade fornecida para os indivíduos fosse de, por exemplo, 35p, dessa forma, este bem determinaria que só poderia ser construído três casas no máximo.

Desta forma, se X demanda 10p e 100q para ser feito, e se há no máximo 35p e 30.000q fornecidos, então a quantidade de X que pode ser feita seria determinada por 35p. Logo, p seria um bem econômico, ao contrário de q, que seria um bem não-econômico, pois seu fornecimento não determinaria a quantidade do produto X que poderia ser feita.

Outra forma de definir bens econômicos seria o fator das despesas. Este fator diz respeito aos bens que devem ser despendidos para se obter um bem econômico. Se é necessário eu dispender bens econômicos para obter outros bens, necessariamente, os bens obtidos são bens econômicos (pois seu fornecimento seria determinado pelo fornecimento de suas despesas, onde tais despesas seriam bens econômicos).

4- Preço, valor e moeda

A moeda sempre tem como objetivo facilitar as trocas de bens entre os indivíduos, sendo que o uso dela no comercio dá um caráter de trova indireta a ele. A diferença entre uma troca direta e indireta é bem evidente: a troca por escambo, por exemplo, seria uma forma de troca direta, onde os indivíduos demandam por suas necessidades com os demais e vice-versa. A troca com moeda se torna indireta, caso eu necessite de cinco galinhas e não necessito escolher algum bem meu para que eu possa trocar por elas (e correr o risco de não haver nenhum comerciante disposto a trocar cinco galinhas por aquele bem especifico). Ao invés disso, eu daria uma X quantidade de moeda em troca das galinhas para o comerciante, onde ele poderia fazer proveito de tal quantia para obter os bens que ele almeja (não seria mais necessário ter que produzir tais bens para então efetuar a troca).

A forma que uma moeda surge é sempre de maneira espontânea, ela seria um meio para facilitar as trocas e deixar os fins dos indivíduos mais acessíveis. Ela não surge do dia para o outro, tampouco seria uma invenção do Estado ou de algum gênio visionário. Pelo contrário, ela é uma simples convenção entre os indivíduos.

Para que um bem seja uma moeda ele deve, antes de tudo, ser aceito universalmente entre os comerciantes e os consumidores (i.e., ser ofertado pelos consumidores e demandado pelos comerciantes) e facilitar as trocas mais do que o escambo. Uma forma de moeda plausível para uma sociedade com organização comercial relativamente complexa seria o sal ou o milho.

Imagine uma situação onde há um grande comércio baseado em escambo dentro de uma sociedade, e lá, Crusoé precisa de cinco galinhas. Então, para conseguir as cinco galinhas, ele precisa ir em algum comerciante disposto a vender cinco galinhas em troca de uma de suas vacas. Entretanto, quando chega no comerciante, o mesmo não está disposto a vender suas galinhas pela vaca, pois ele necessitava de um cavalo. Apesar disso, Crusoé não se preocupa, pois ele pode trocar sua vaca por uma quantidade de minha, usar de tal milho para comprar as galinhas e sugerir ao comerciante usar de tal milho para comprar o cavalo do comerciante B ali próximo que estaria disposto a vender um cavalo por aquela quantidade de milho. E assim é feito.

Nessa situação, o milho foi usado como um meio de troca indireta, pois Crusoé não comprou suas galinhas as trocando diretamente por um bem dele, e sim, vendendo seus bens em troca de um outro bem para então conseguir seus objetivos. Dentro dessa sociedade, em não muito tempo, os comerciantes gradualmente iriam usar o milho ou outro bem econômico como meio de troca indireta para facilitar o comércio. Dessa forma, quando o comerciante B vendeu para comerciante A um cavalo por uma quantidade X de milho, esse milho poderia ser usado por comerciante B para comprar um outro bem de outro comerciante C, e assim sucessivamente.

Numa sociedade com comercio baseado em moeda, os preços seriam estabelecidos de forma bem mais fácil. O preço é justamente o valor de um bem expresso em forma contábil, ou seja, se eu oferto um bem econômico X por dez unidades de um bem Y, então o preço de X são dez unidades de Y. Numa sociedade com comércio baseado em escambo, cada comerciante teria formas bem especificas de ofertar um mesmo bem: um mesmo bem X poderia ser ofertado por dez unidades de Y, outro comerciante ofertaria por cinco unidades de Z, outro por cem unidades de P, etc. Numa sociedade com comércio baseado em moeda, um mesmo produto X seria ofertado pelo mesmo bem Y em quantidades diferentes, assim, os preços ficariam mais “universais”, pois seriam determinados por um único meio de troca em comum, e não vários bens econômicos diferentes


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