Uma visão de estratégias do Movimento Libertário

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A Pressa Estrangeira, a Prática Brasileira e Novas Perspectivas

Há aproximadamente 70 anos atrás, um jovem anarquista via o mundo, injusto em suas dialéticas mais essenciais, nas suas contradições internas e pretensioso, o jovem se deparava com as questões mais elementares e não encontrava uma correspondência da realidade para com elas. Não tinha mais sorte quando se deparava com um outro indivíduo, o discurso era essencialmente em uma só direção; menos liberdade. E tudo o que ele encontrava em cada ação bem-sucedida e em cada sucesso do mundo era justamente a liberdade e voluntariedade dos agentes.

Esse jovem se dedicou profundamente ao anarquismo e se opunha profundamente ao capitalismo tal como ele era. Literalmente um comunista. Um belo dia, esse jovem decidiu dar uma chance a uma obra curiosíssima: Ação Humana de Ludwig Von Mises. Nesse dia, lá pela década de 50, esse passa a ser Murray Rothbard tal como o conhecemos. Ele não apenas lê o Ação Humana, ele lê em alguns dias todas as obras já feitas por Ludwig Von Mises até aquela data e se torna seu seguidor mais proeminente em pouco tempo.

O próprio Mises o reconhece como um dos maiores dos destaques da escola austríaca, o Man, Economy and State é um livro que a partir dali seria um referencial permanente para a escola austríaca e ele não disse isso nem mesmo de Hayek. Seus caminhos passam ali pelo conservadorismo da velha direita, mas de forma muito breve.

A década de 60 foi extremamente produtiva para Rothbard e é caracterizada por uma guinada racional em direção aos modelos de organização social. Rothbard se torna então um anarquista da propriedade privada e interage cada vez com o meio libertário, produzindo obras como Power and Market e inaugurando o Left and Right. Na década de 1970 vem o Libertarian Forum, Journal For Libertarian Studies e depois começa a ser inaugurado o próprio Instituto Mises. Rothbard era para muitos fins um pragmático e tentava ao máximo fazer suas ideias serem repassadas a todo custo.

E o motivo para isso é óbvio, sua forma de pensar era dividida por muitas pessoas na época que não são nem citadas (infelizmente) como o Karl Hess e o Blumert mas também opostas por uma parcela significativa de pessoas, o que Rothbard mais buscava e apenas o que podia esperar é que sua versão do libertarianismo fosse propagada adiante.

Hans Hermann Hoppe foi outro comunista em sua adolescência, um frankfurtiano de carteirinha até conhecer Friedman, Hayek, Mises e Rothbard. Sob condições melhores que Rothbard, a ideia libertária aqui já era amplamente difundida e internamente elaborada. Sua função não era outra senão a de responder algumas das principais objeções do século e a de sinalizar um mecanismo efetivo de fim da influência do estado, que ele fez através da ideia de uma secessão universal bottom-top que se baseia em teias contratuais.

Hans Hermann Hoppe e Rothbard, dois grandes nomes libertários. Hoppe e Rothbard. E ao mesmo tempo, dois nomes que tinham pressa. Profunda pressa. E o motivo para isso me é claro, diante de suas próprias ignorâncias, precisam inventar a roda, criar a fundação de uma sociedade de leis privadas que eles gostariam de ver acontecer. Os dois correram desesperadamente em direção a ela. Homens como Pat e Ron Paul foram grandiosamente apoiados nessa narrativa e me encanta como dois conservadores não perceberam a ironia de seus atos.

A guerra dos dois com o estatismo era antes de tudo uma guerra interna. Por isso, Rothbard foi demorar até quase o fim da sua vida para perceber que a pressa lhe fizera perder de vista as maiores oportunidades e foi aquilo que ele não fez compelido pela pressa que o fez prosperar

A razão para isso talvez seja mais emblemática do que se pode imaginar. Os dois perderam seus grandes mestres quando estavam mais próximos de suas grandes obras, para Hoppe isso significou um longo hiato de 6 anos sem publicar obras e para Rothbard significou o oposto. Hoppe se recuperou desse baque criativo em 2001 e então publicou 15 livros em 19 anos. Pressa. Muitos libertários têm pressa. Na verdade, a maior deles a tem. E isso pode ou não vir a ser um problema.

O Anarco-capitalismo tem apenas 46 anos e ainda assim, o ritmo foi insano. O austro libertarianismo pode ser dito ter em torno de 50 anos. Da publicação do Power and Market para cá. Ou até mesmo do Libertarian Forum. Seja como for, é extremamente novo. Esses homens se preocuparam em fazer absolutamente de tudo e até aqui pouco se falou a nível de consolidação. Como um institucionalista preciso dizer; isso precisava acabar. E em real, já vai nesse sentido, o trabalho da vida de Kinsella e Block seguiu fortemente atrás dos dois grandes mentores e foi o de questionar seus trabalhos até as últimas pontas e então aprimorá-los.

Isso, entretanto significou algo muito mais difícil, ao enunciarem brilhantemente os pontos libertários mais fundamentais, eles também os tornaram mais controversos. O que precisamos agora é entender então não qual a ação, mas como é que a ação irá efetivamente ser gatilhonada. Tivemos pressa, tivemos consolidação e agora temos controvérsia. E a controvérsia parece ter feito surgirem lacunas, lacunas no movimento libertário sobre todo tipo de assunto que desprovidos de mantras fáceis, mas de um raciocínio multidisciplinar e extremamente conciso, nós temos que preencher.

O movimento nos EUA (mas também em outros lugares no resto do mundo) segue fortemente a via acadêmica e está resolvendo seus problemas antes de progredir sob forma de mecanismos de mudanças estruturais que estão sendo pensadas. Dito isso, então a nossa forma de ajudar seria lendo, refletindo e adicionando ao grande debate libertário sendo feito. Mas isso não necessariamente precisa ser verdade aqui e por isso eu vou abordar alguns pontos específicos do Brasil.

Algumas considerações precisam ser feitas antes de qualquer coisa. Minhas visões acerca do movimento libertário vêm em duas direções, o que eu li sobre o que aconteceu no movimento libertário através desse artigo simpático do mercado popular: http://mercadopopular.org/politica/a-historia-do-movimento-libertario-brasileiro/. E aquilo que eu busquei entender ao longo dos últimos meses, ao procurar constantemente versões de todos os lados tanto em posts, quanto em vídeos.

Para vocês terem ideia, eu assisti ao longos dos meses a todos os cerca de 3000 vídeos sobre libertarianismo e os mantenho em biblioteca própria. Quando o Kogos quis derrubar o canal, eu subi tanto o acervo do Kogos quanto o do Porto no Austro Libertarianismo.

Minha conclusão vendo todos aqueles vídeos depois que minha própria formação como libertário já estava bem avançada foi que o movimento estava ainda engatinhando no que tange a produção acadêmica e a aquisição do conhecimento necessário.

E isso se deu basicamente em função de um ciclo do movimento. Quando uma centena de pessoas que estava ali no início foi para caminhos diversos, carregaram consigo uma quantidade significativa de conhecimento libertário e ao mesmo tempo, as linhas entre o movimento liberal minarquista/liberal radical são e sempre foram por aqui muito próximas ao próprio movimento libertário, diferente dos EUA onde o movimento por ter uma personalidade assumidamente discursiva e destacada na figura de Rothbard e por se opor fortemente a outras ideologias como é o caso da Ayn Rand, tomou proporções próprias.

É claro que a palavra Anarcocapitalista se confunde profundamente com a palavra Libertarian, mas isso foi intencional, não em questão de identificar, mas de misturar o discurso. Isso teve consequências que justamente deram origem ao Paleolibertarianismo, mas essa é outra história. Por aqui, não tivemos isso.

Como o movimento liberal e o movimento libertário aqui se confundiram profundamente em muito por uma carência em relação à produção austríaca que não existiu nos EUA (existia escola austríaca nos EUA antes de haver libertarianismo e elas não necessariamente se confundiam), em função do fato de que os produtores principais dos artigos sobre Economia austríaca eram justamente libertários, isso significou que passamos a ter um número significativo de liberais que já haviam ouvido de forma velada o nome Anarco-capitalismo e tem alguma opinião sobre isso.

Muitas vezes as pessoas confundem isso com o número de libertários que existem e esse é um dos erros mais bobos para vocês terem ideia, um dos maiores programas de humor nos EUA (The Office) tem um libertário Anarcocapitalista como atração principal e possui seus milhões de views só lá nos EUA.

Mas ainda assim, vamos voltar aqui ao problema principal, temos uma galera significativa que já ouviu falar em nós, nosso público se confunde fortemente ao do movimento liberal austríaco, temos uma comunidade extremamente engajada e que por isso onde aparecemos, as pessoas querem postar mais sobre nós pelos números.

Como pontos negativos temos a pouca produção própria (a maior parte é tradução), temos a forte mentalidade estatista aqui presente, temos a fragilidade acadêmica dos próprios brasileiros e temos uma visão mais caricata aqui da comunidade.

Também temos a questão de que muitas pessoas leem as obras estrangeiras e esquecem que o nosso movimento não tem a difusão de ideias do movimento que estão lendo, embora tenhamos um número significativo de impressões estabelecidas na população.

Estabelecidos os problemas do movimento libertário brasileiro e internacional, vai aqui minha sugestão: precisamos encontrar mecanismos relacionados a produção de conteúdo para a maximização das esferas de ação. Minha ideia é que a produção de conteúdo gire em torno de máximas como: desobediência civil, participação no discurso político não institucionalizado, esfera local.

Assim, não só ajudaremos a preencher lacunas, mas contribuiremos diretamente com a prática em si. E nesse nível de proposição, a atuação do próprio indivíduo se torna cada vez mais POSSÍVEL, DESCENTRALIZADA e INDEPENDENTE.

Quanto a participação internacional, é importante que escrevamos respondendo eles lá fora, vamos fazer uma comunidade realmente internacional.  Essa provavelmente é a marca de um mundo em que a liberdade seja mais próxima.

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