Um Libertário Pode Ser Servidor Público?

Taiane Copello
taiane.copello@gmail.com

Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

A espoliação é uma das maiores armas da manutenção do parasistismo estatal. O Estado se mantém por meio do roubo pois não é eficiente o bastante para capitalizar indivíduos que, de forma voluntária, se sintam no dever ou simplesmente com a vontade de trocarem o que eles têm por algo ainda superior à sua força de trabalho ou seu dinheiro. É por essa razão que o Estado existe: manter uma elite política no controle de tudo. Entretanto, uma questão crucial se faz presente no estilo de vida de alguém que conhece essa verdade: podemos ser servidores público? Ou melhor, como sugere o próprio título: Um libertário pode ser servidor público?

Primordialmente, se faz necessário explicar o que é ser um libertário. Vejamos: um libertário é nada além de um indivíduo que se posiciona a favor do respeito à propriedade privada e contra a agressão à indivíduos que não iniciaram esta agressão contra outro. Isso quer dizer que, em hipótese alguma, o libertário poderia agredir alguém ou argumentar a favor disso, pois estaria sendo incoerente ao cometer uma contradição.

Em segunda instância, é preciso dizer que o o Estado é. Ele é somente o monopólio coercitivo do uso da força, que se mantém, como afirmou Murray Rothbard, em uma de suas maiores obras, Anatomia do Estado: “O Estado se mantém por conta da propaganda ideológica” (ROTHBARD, 2018), e é por conta dele se promover como uma ferramenta de justiça e administração da sociedade que ele parece para todos como uma ordem – o que não é verdade.

Outro ponto crucial é que muitos libertários tem argumentado ou questionado se um libertário poderia ser servidor público. E não só os libertários, mas as pessoas, no geral. E o próprio Murray Rothbard levantou essa questão. Em “A Ética da Liberdade”, ele argumenta que ser um servidor público é antiético – o que não está errado. Isto porque se você paga R$ 1.500 em impostos e recebe R$ 20.000, como, por exemplo, um deputado, você não estará recebendo seu retorno, mas o dinheiro de outros pagadores de impostos. Então, sua margem de roubo é de R$ 18.500.

Muitos se questionam também porque deveríamos não agredir ninguém, como com o roubo, mas este não é a primazia de resposta deste artigo. Se você se interessar por esse questão, há dois artigos meus os quais disponibilizarei na bibliografia, presente no final deste texto. Por hora, me encaminho a concluir esta questão. Sendo assim, Rothbard conseguiu provar que há margens de lucros menos e maiores para os cidadãos conforme a espoliação do Estado, o que torna antiético seu uso.

Entretanto, existe uma maneira de não usar o Estado? A resposta é não. Isso, pois, ao viver dentro de uma organização criminosa, você acaba por usar, inevitavelmente, resultados desta organização. Um exemplo disso são as ruas, as quais foram cosntruídas com dinheiro público, ou melhor, dinheiro roubado. Como diria Margaret Tatcher: “Não existe dinheiro público, existe apenas o dinheiro do pagador dos impostos”.

Muitos argumentam que se você quer usar o Estado para fins satisfatórios, você já está consentindo, e que, caso contrário, você poderia sair do país ou viver no meio do mato. Ora, a primeira hipótese é falsa, pois, se você sair de um lugar onde tem escravidão, a escravidão não deixa de ser errada. E a segunda hipótese é ainda pior, pois existem prisões para quem vive no meio do mato. E então, não se prova que pelo fato de termos outra opções de vivência, pois umas não deixam de demonstrar o erro da prática pelo evitamente individual da prática, enquanto outras não provam que há liberdade, uma vez que há punições ou impedimentos de serem seguidas.

Mas é inevitável usar o Estado. Ao se viver dentro de uma Estado-nação, sendo nativo ou imigrante, não há como não pagar os impostos sem sofrer ameaças, como se ele fosse um pagamento voluntário análogo a cada uso daquele que está pagando. Em suma, os serviços estatais [1] não são como os serviços privados, que são escolhidos pela livre e espontânea vontade dos servidores e dos clientes. Cada centavo que entra é da escolha de quem investe e de quem usa, com as exceções das empresas corporativas [2], que recebem subsídios estatais [3].

Portanto, se não é justificado a saída do Estado enquanto fundamento ético para o mesmo, e como se torna inevitável viver nele sem usá-lo, todos estamos sendo antiéticos. Por essa razão, não é antiético ser libertário e ser servidor público, isso é antiético porque qualquer uso do Estado é antético.

NOTAS

[1] Serviços os quais o Estado oferece.

[2] Denomino empresa corporativa qualquer empresa privada que possui conluio com o Estado.

[3] Subsídio é o dinheiro que o Estado entrega na mão de empresas que deseja investir o dinheiro dos impostos.

REFERÊNCIAS

ROTHBARD, Murray N. Anatomia do Estado. Tradução: Tiago Chabert. Edição: Livro de bolso; São Paulo, Ed. Ludwig Von Mises Brasil, 2018.

ROTHBARD, Murray N. A Ética da Liberdade. Tradução: Fernando Fiori Chiocca; São Paulo, Ed. Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2010.

HOPPE, H.H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo. Tradução: Bruno Garschagen. 2º Ed. São Paulo, Ed. Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013.


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