Joe Biden e os U$ 38 trilhões da injeção do FED: Uma análise dos Ciclos Econômicos Austríaco

Taiane Copello
taiane.copello@gmail.com

Carioca, 22 anos, estudante de filosofia na UFRJ, escritora de artigos da Universidade Libertária, ex-coordenadora do projeto LibertaRio e do Grupo de Estudos Walter Block. Palestrou na Frente Libertária; publicou um artigo na Revista Pontes sobre filosofia austríaca; escreve monografia sobre Praxeologia; tem mais de dois mil e duzentos seguidores no twitter onde posta com frequência conteúdo libertário e demais temas que envolvam filosofia e economia.

Desde o início da pandemia, o Federal Reserve System, abreviado como FED, que é algo como o Banco Central americano e que cuida das reservas de dólares e detém o monopólio do controle monetário, tem imprimido trilhões de dólares e injetado na economia. Isso aconteceu por meio de injeções de liquidez, expandindo o crédito como programas de empréstimos ou compras de ativos, como também por meio de alívios fiscais e gastos sociais. Segundo o Jornal Block Trends, o total da criação de moeda resulta em 63,7 trilhões em pacotes para debelar o decréscimo econômico na pandemia.

Neste artigo pretendo demonstrar a visão austríaca da teoria monetária dos ciclos econômicos, que é o assunto em economia que estuda como acontece a circulação da moeda. Esta análise será respeito da situação dos Estados Unidos e provar o erro de Joe Biden. Isto porque o atual presidente do país acredita que estes 38 trilhões de doláres ainda seja pouco. 13,2 trilhões já foram impressos, mas Joe Biden achou pouco e injetará mais 24,8 trilhões este ano. O número assusta, mas de acordo com as legislações americanas, o plano estará em vigência.

Primeiramente, precisamos entender que o Estado, por deter o monopólio da moeda, poderá imprimir infinitamente pois a moeda já não tem mais lastro desde o fim do Bretan Woods [1] nos anos 1970. Não me estenderei neste texto para explicar tal política ou a recessão do século passado [2], mas irei explicar o porquê a ausência do lastro enfraquecer a moeda.

As moedas são meios de troca, mas por possuir liquidez, estando sujeita a oferta e demanda bem como preços, pois pode ser comparada a outras moedas, ela também é uma mercadoria. Isto porque o dinheiro não é uma unidade abstrata de conta, ele não se separa do mundo concreto e material, nem algo descartável que só presta para trocas, e tampouco somente um título sobre os bens econômicos. A verdade crucial sobre o dinheiro é esta: o dinheiro é uma mercadoria. Como sustentou Murray N. Rothbard [3], tanto sobre o dinheiro ser um bem econômico quanto sobre suas vantagens que as mercadorias em geral estão subjugadas:

“Todas essas vantagens [liquidez, divisibilidade e crédito] amentam a comerciabilidade de um bem. Sendo assim, em cada sociedade, os bens mais comerciáveis serão, com o tempo, escolhidos para representar a função de meio de troca. À medida que sua utilização como meio de troca vai se tornando mais ampla, a demanda por eles aumenta, e, consequentemente, eles se tornam cada vez mais comerciáveis” (ROTHBARD, 2013).

Um dos pontos cruciais para entender a teoria austríaca dos ciclos econômicos é compreender, antes de tudo, a lei da oferta e da demanda. Uma lei econômica é uma constante de mercado, isto é, em todas as ocasiões possíveis o mercado irá funcionar de acordo com esta lei. A lei descoberta por Jean Baptiste-Say [4], infere que o produto é igual a renda que é igual ao dispêndio, isto é, tudo o que é consumido precisa ser previamente produzido. Em todo mercado há oferta e demanda, sendo toda oferta uma disponibilidade de bens econômicos deste mercado e toda demanda a procura efetiva por estes mesmos bens. Para que um bem econômico seja produzido isso leva tempo. Um exemplo disso é um celular que passa pelo processo de divisão do trabalho para organizar seus fatores de produção. Logo, oferta sempre precede a demanda.

Agora que você sabe como funciona o mercado, que são trocas voluntárias de bens e serviços, podemos compreender também que conforme surge mais dinheiro na economia, se torna maior a oportunidade de gastar este dinheiro. Dessa forma, os indivíduos aumentam sua preferência temporal. A lei da preferência temporal foi descoberta por Eugen Von Böhm-Bawerk [5]. Tal lei infere que “os bens presentes são invariavelmente preferíveis aos bens futuros”.

Esta nos explica que nossa preferência temporal pode ser de dois tipos: baixa e alta. Sendo a baixa a abdicação dos gastos presentes por conta da expectativa do alcance do fim no futuro. Enquanto isso a alta é quando se é usado o tempo presente para gastar o que queremos conseguir naquele momento, mas que não satisfazer o conforto futuro. E é exatamente isso que acontece quando o governo gera a ilusão de que estamos enriquecendo, quando o dinheiro é ganho por meio de empréstimos, financiamento e de outras formas já supracitadas neste texto. Todavia, são apenas benefícios de curto prazo.

Algumas das consequências econômicas de longo prazo são a inflação, que é o aumento da base monterária, a desvalorização da moeda e o desemprego generalizado. Conforme a circulação do crédito acontece, a moeda perde seu valor pois a oferta de moeda aumenta e a demanda do uso da mesma acaba crescendo. Os preços são afetados, não só o preço do dinheiro (câmbio). E, com isso, torna-se mais custoso alocar mão-de-obra, com isso, o desemprego aumenta. Outra situação que pode acontecer é que os serviços percam a qualidade, pois dependem de outros setores do mercado.

O mesmo é o caso dos Estados Unidos, que tem tentado há décadas lidar com crises e recessões por meio da injeção de liquidez, mas isso nunca funcionou e continuará não funcionando. Pois, você pode até ignorar o mercado, mas não poderá ignorar as consequências de se ignorar o mercado.

NOTAS

[1] Política monetária americana do século XX após a crise econômica de 1929.

[2] Para entender melhor sobre tal assunto leia o livro “A Origem Do Dinheiro” do economista Murray N. Rothbard, disponível nesta bibliografia.

[3] Murray Newton Rothbard (1926-1995) é um filósofo e economista americano da Escola Austríaca de economia e, a partir de Ludwig Von Mises, professor de Rothbard, uma escola também de filosofia.

[4] Jean Baptiste-Say é o economista que desenvolveu a lei da oferta e da demanda. Foi professor de Adam Smith, economista considerado o pai da economia, mas, no entanto, Say produziu suas contribuições econômicas anteriormente à ele.

[5] Eugen Von Böhm-Bawerk é um economista austríaco da Escola Austríaca de Economia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

VON MISES, Ludwig. As Seis Lições. Tradução: Maria Luiza Borges. 7º Edição; São Paulo, Ed. Ludwig Von Mises Brasil, 2009.

ROTHBARD, Murray N. Anatomia do Estado. Tradução: Tiago Chabert. Edição: Livro de bolso; São Paulo, Ed. Ludwig Von Mises Brasil, 2018.

HOPPE, H.H. Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo. Tradução: Bruno Garschagen. 2º Ed. São Paulo, Ed. Instituto Ludwig Von Mises Brasil, 2013.

ROTHBARD, Murray. O que o governo fez com nosso dinheiro? Tradução de: Leandro Augusto Gomes Roque. 1º Edição. Ed. Ludwig Von Mises, 2013.

BÖHM-BAWERK, Eugen. A Teoria da Exploração do Socialismo-comunismo. Traduzido por Lya Luft. 1º Edição. Ed: Ludwig Von Mises Brasil, 2014.

VON MISES, Ludwig. O Cálculo Econômico Sob o Socialismo. Ed. Ludwig Von Mises Brasil. 1° Edição. Publicado em 1 de Janeiro de 2012.

“Murray Rothbard”. Pesquisa em: 25 de novembro de 2020. Acesso em: https://en.wikipedia.org/wiki/Murray_Rothbard.

“Eugen Von Böhm-Bawerk”. Pesquisa em: 18 de janeiro de 2021. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugen_von_B%C3%B6hm-Bawerk.

“Jean-Baptiste Say”. Pesquisa em: 18 de janeiro de 2021. Acesso em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Baptiste_Say.


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