Incompletudes na Ação Humana de Ludwig Von Mises

Pílulas Vermelhas, Qualidade Alta

Acredito que a ação humana esteja incompleta. Algo bem real parece acontecer e não está descrito na obra misesiana ou pode ser descrito em termos misesianos. Esse fenômeno se refere aos ciclos de expectativa. Veja bem, quantas vezes não presenciamos em nossas vidas algo que pode ser descrito nos seguintes termos;

“Estávamos vivendo habitualmente, dentro de uma rotina aproximadamente estática, com as expectativas do mundo correspondendo a um padrão de normalidade e nos deparamos com algo que pode ser descrito como uma novidade.”

Veja que habitualmente conhecemos essa novidade pelo seu tipo geral mas não o conhecemos pelo seu tipo específico. Assim, eu poderia descrever essa novidade como emprego, interesse amoroso ou ocorrência familiar mas não estaria me referindo aos eventos em si. Me refiro mais precisamente a um estado de coisas relativo a um emprego, a uma pessoa ou ocorrência específicos. Nossa primeira fase é uma fase de acoplamento das expectativas do geral por sobre o específico.

Não conhecemos o específico e iremos ao pouco realizar dois processos conjuntos, criar expectativas próprias por sobre o específico e remodelar o geral em função de uma unidade sistemática com o dado. Essa ideia, a de que nossas expectativas gerais irão ser a porta de entrada das expectativas específicas na mesma forma em que as expectativas específicas formaram as expectativas gerais por unidade de si mesmas, irá fazer com que a ponderação da utilidade assuma contornos mais complexos do que os misesianos.

Veja, a expectativa a ser atendida não corresponde a uma ordem geral da especificidade da coisa posta, mas a uma ordem geral relacional entre as expectativas gerais e as expectativas específicas. Sendo assim, parece haver algo internamente tratado de forma hermenêutica, com pesos diversos entre nossas expectativas específicas e nossas expectativas gerais. Sobre isso, Mises não falou uma sequer palavra.

Ilustrando em exemplos para que seja de mais fácil compreensão, deixe me colocar assim: algumas vezes analisamos nossos meios através de perspectivas mais gerais e outras através de perspectivas mais específicas e a mesma ação pode ser perfomada com uma real divergência entre as formas que nós racionalizamos ela de forma específica e geral.

Pense assim, pode ser que um determinado relacionamento com uma determinada pessoa faça completo sentido em si mesmo. Vocês vêem satisfeitas as expectativas específicas que foram efetivamente postas tempo a tempo. Quando quis sexo, havia sexo, quando quis conversar, havia conversa, quando quis afeto, havia afeto. Entretanto, daí não se retira que a pessoa esteja efetivamente satisfeita com esse relacionamento, na medida em que suas demandas gerais podem ser efetivamente diversas das específicas. Como assim?

Bem, basta pensar que estejamos tratando de um namoro católico, onde o homem efetivamente tenha uma preferência futura de que não haja sexo antes do casamento que embora tenha se mostrado vencida no momento efetivo do sexo, ainda continua a compor o conjunto de expectativas gerais do mesmo.

Sendo assim, embora ele efetivamente quisesse e tenha optado pelo sexo naquele momento ele passa a interpretar ela como alguém com quem não quer manter um relacionamento, por ter cedido a ação dele. Veja que existe aí uma contradição, ao mesmo tempo em que ele de fato preferiu a mulher que oferecesse sexo a ele no momento em que pediu, a sua preferência momentânea não descreve a pessoa com que ele efetivamente quer se relacionar.

Claro que podemos colocar as coisas em termos de preferência temporal, mas o que eu quero salientar não é a possibilidade de transpor isso em linguagem misesiana, mas a conformidade mental diversa de uma coisa que seria mais desejável tendo dois estados diversos em que efetivamente a nossa expectativa geral possa contrariar a nossa expectativa específica.

Queremos não ter gastado nosso dinheiro naquela calça cara, porque a expectativa geral é a de que sejamos pessoas que poupam, mas isso não explica a efetiva hierarquia que expectativas gerais e específicas possuem.

O porquê de certas vezes agirmos em função das expectativas gerais que são normalmente mais perenes e de certas vezes agirmos de acordo com as expectativas específicas que descrevem melhor a coisa posta.

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