Entre a Vontade e o Destino

Renan Leonardi da Silva
renan.virtual@hotmail.com

Entusiasta libertário estudante de economia, e de filosofia nas horas vagas.

anarcocapitalismo

Introdução

Seria o destino das pessoas controlado por uma entidade ou lei transcendental? Seríamos nós livres para escolher? Ou incapazes de controlar nossas próprias vontades, e destinados a algo inescapável?

Esta é uma discussão antiga na filosofia, o determinismo contra o livre arbítrio, a teoria da volição; e, recentemente — com a discussão sendo trazida a tona novamente por Daniel Morais e debatida por outros que estudam filosofia, como David Ribeiro — me veio à mente uma ideia, um pensamento, um argumento que eu acredito que possa refutar o determinismo, e confirmar o livre arbítrio.

No passado, em textos mais antigos, eu defendi o livre arbítrio com base em um argumento proposto por Leonard Peikoff, porém com o tempo passei a discordar de tal argumento, assim como passei a discordar do argumento para a causalidade proposto por Mises e Hoppe que eu usava. Com tal mudança, acabei ficando em um estado de completa dúvida em relação à questão do livre arbítrio e do determinismo, isso até recentemente, quando me veio à mente este argumento.

Leonard Peikoff ao lado de Ayn Rand

O texto a seguir é a apresentação deste argumento com o objetivo de refutar o determinismo, no qual pensei após a leitura de um texto, que li por conta do debate a respeito do tema que surgiu recentemente (o argumento não é o mesmo do texto, porém foi inspirado por ele, este texto será o primeiro na lista de referências).

Caso qualquer leitor tenha objeções ou acredite que cometi algum erro de raciocínio peço que me diga, para que eu possa atualizar meu conhecimento.

Forma Resumida

Aqui apresentarei uma forma resumida e simplificada do argumento e, depois, irei desenvolver ele com mais detalhes, mostrando todos os processos de raciocínio que levam à conclusão, com lógica simbólica.

Meu argumento é um argumento por reductio ad absurdum, ou seja, ele tem como intenção demonstrar que o determinismo é falso por ele levar a uma contradição, a teoria, de uma forma ou de outra, se auto refuta.

A contradição ocorre por a defesa do determinismo, defender que ele é uma verdade necessária, porém, ao mesmo tempo, implicar que o determinismo não é uma verdade necessária.

Ou seja, a defesa do determinismo leva a duas proposições contraditórias, uma que vem da sua defesa de forma mais explícita — a ideia de que o determinismo é uma verdade necessária, vinda diretamente da defesa da teoria determinista— e uma implicação, não tão explícita, da teoria determinista, a implicação de que o próprio determinismo não é uma verdade necessária.

Primeiro, o que quero dizer com “verdade necessária”. Uma verdade necessária não é simplesmente uma verdade qualquer, entende-se uma verdade necessária como uma verdade que seria impossível de não ser verdade, ou seja, não haveriam possíveis alternativas a esta verdade que poderiam ter sido verdades também.

Um exemplo para ilustrar melhor, suponha que eu coma um chocolate agora, isso é uma verdade, eu comi um chocolate, porém é uma verdade necessária? Eu não poderia ter não comido o chocolate, não comido nada ou então comido outra coisa? Se existem estas outras possibilidades, possíveis situações (geralmente chamadas na filosofia de mundos possíveis), que poderiam ter ocorrido, ou seja, se poderia ter sido de outra forma, então esta verdade não é uma verdade necessária, embora seja uma verdade.

Verdades necessárias são como leis universais, como leis da lógica, leis econômicas, praxeológicas, matemáticas… Etc.. Elas não poderiam ser falsas, nem em cenários alternativos, é impossível.

Agora, é necessário entender o que é determinismo. Entendo aqui o determinismo como a ideia de todas as escolhas que fazemos e todas as crenças que temos não poderiam ter sido diferentes, ou seja, são necessariamente estas (as escolhas e crenças que tomamos são verdades necessárias, não poderiam ter sido diferentes), por haverem fatores preexistentes que nos façam ter tais crenças e escolher tais escolhas (seja esse fator físico, divino, ou qualquer outro).

E qual é a contradição a qual esta tese leva?

Se eu afirmo que o determinismo é verdadeiro estou, explicitamente, afirmando que o determinismo é uma verdade necessária. Eu não poderia afirmar que ele é verdadeiro sem afirmar que é uma verdade necessária, pois o próprio determinismo assume que não existem outras possibilidades alternativas. Ou seja, a única forma de afirmar que o determinismo é verdade, é afirmar que ele é uma verdade necessária, que ele é necessariamente verdadeiro.

Porém o determinismo tem, também, certas implicações.

O determinismo implica que se eu acredito em algo, eu não acredito nisso por isto ser verdade, mas sim por algum fator preexistente ter me feito acreditar nisso, ou seja, sou determinado a acreditar nisso. Se o determinismo estiver certo eu poderia muito bem acreditar em uma crença e ela ser falsa, porém eu estar fadado a acreditar nela de qualquer forma, pois eu sou determinado a fazê-lo, e não seria possível para mim acreditar em qualquer outra coisa. E o mesmo vale para a própria crença no determinismo.

“Now let’s suppose that determinism is true. Then every event in a man’s consciousness is made necessary by antecedent factors over which he has no control. If he focuses his mind, believes not-A, he had to. Now let’s assume that a man can know something, and show that this assumption leads to a contradition. If a man knows something, X, he must know a good reason for believing X. If what he believes is not even indirectly under his control, then the cause of believing X may not be related to why X is true. For instance, a man may believe X because of a sexual desire (Freudian determinism), or because of his early childhood (environmental determinism), or because of the state of his brain (physiological determinism). But none of these constitute a valid reason for believing X to be true. The only valid reason for believing X is that the logical and/or empirical grounds for X led him into believing X, not that his early environment, his sexual desires, or the state of his brain led him into it.” (Harry Binswanger, A Refutation of Determinism)

Harry Binswanger

Se, para qualquer crença minha, algum fator preexistente me determinou a acreditar nela, é possível que este fator preexistente tenha me determinado a acreditar em uma crença falsa, ou seja, o determinismo implica que qualquer crença que eu tenha não é necessariamente verdadeira, não é uma verdade necessária. O mesmo vale para o próprio determinismo, o que significa que, ao defender o determinismo, eu assumo que o determinismo não é uma verdade necessária (por ser uma implicação dele que nenhuma crença é uma verdade necessária).

Isso gera uma clara contradição entre as proposições “o determinismo é uma verdade necessária” e “o determinismo não é uma verdade necessária”. Ou seja, a defesa do determinismo leva a uma contradição.

Porém tal argumento é válido apenas para a própria pessoa que argumenta, ou seja, pelo menos até onde pensei com tal argumento, é apenas possível que o próprio indivíduo que argumenta refute o determinismo sobre si mesmo, mas isso não implica que seja impossível que existam seres determinísticos (como robôs, alguns animais…).

Este foi um breve resumo e introdução que tentei fazer ao argumento, a seguir irei apresentar sua formalização.

Argumento Completo

A crença no determinismo engloba duas proposições importantes que chamarei aqui de D1 e D2, e que podem ser unidas em uma proposição maior que chamarei de D. O objetivo do argumento é o de refutar a proposição D, pois se ela é falsa também é o determinismo. Apresentarei as proposições a seguir.

D1: □∀P[B(i,P)⇒F(f,B(i,P))]

D1 afirma que para toda a proposição, se eu acredito nela então algum fator preexistente me fez acreditar nesta proposição.

D2: □∀P[B(i,P)⇒□B(i,P)]

D2 afirma que para toda a proposição, se eu acredito nela, então eu necessariamente acredito nela (ou seja, não seria possível que eu não acreditasse nela, no caso por isso ter sido determinado).

D: □(D1∧D2)

D é a junção de D1 e D2, e a afirmação de que ambos são uma verdade necessária, e a tese do determinismo só é verdadeira de D for.

Abaixo colocarei o argumento formalizado e, depois, tentarei transcrever as premissas, corolários e demais proposições com linguagem verbal para quem tiver alguma dificuldade em entender.

P1: F(f,B(i,P))⇒¬□(B(i,P)∧P)

  • C1: F(f,B(i,D))⇒¬□(B(i,D)∧D)

P2: K(i,D)⇒(□∀P[B(i,P)⇒F(f,B(i,P))])

  • C2.1: K(i,D)⇒(□∀P[B(i,P)⇒¬□(B(i,P)∧P)])
  • C2.2: K(i,D)⇒□(B(i,D)⇒¬□(B(i,D)∧D))
  • C2.3: K(i,D)⇒□(B(i,D)⇒(¬□B(i,D)∨¬□D))

P3: K(i,D)⇒B(i,D)

  • C3: K(i,D)⇒(¬□B(i,D)∨¬□D)

P4: K(i,P)⇒□B(i,P)

  • C4: K(i,D)⇒□B(i,D)

∴ K(i,D)⇒¬□D

D□D

∴ K(i,D)⇒¬D

Prova por reductio ad absurdum.

P1: Se algum fator preexistente me fez a acreditar em algo, então não necessariamente isso no qual acredito é verdadeiro (fatores preexistentes podem nos determinar a acreditar em proposições falsas).

  • C1: Isso também vale para a crença em D, ou seja, se algum fator preexistente me fez a acreditar em D, então não necessariamente D é verdadeira.

P2: Se eu sei que D é verdade, então para toda a proposição, se eu acredito nela então algum fator preexistente me fez acreditar nesta proposição (definição de D1).

  • C2.1: Se eu sei que D é verdade então para toda a proposição, se eu acredito nela, então não necessariamente ela é verdadeira. (implicação da P1)
  • C2.2: E isso também vale para a crença D, se eu sei que D é verdade então se eu acredito em D, não necessariamente e D é verdadeiro. (implicação da C1)
  • C2.3: Se eu sei que D é verdade, então se eu acredito em D, ou não necessariamente D é verdadeira, ou não necessariamente eu acredito em D (o que é o mesmo que dizer que é possível que D seja falsa, ou que é possível que eu não acredite em D). (aplicação das leis de De Morgan)

P3: Se eu sei que D é verdade, então eu acredito em D. (isso vem da definição de saber e acreditar, sendo saber acreditar em algo que é verdadeiro)

  • C3: Então, se eu sei que D é verdade ou não necessariamente D é verdadeira, ou não necessariamente eu acredito em D. (implicação de C2.3)

P4: Se eu sei que D é verdade, então eu necessariamente acredito em D. (implicação de D2)

Logo, juntando os corolários C3 e C2.3 obtidos, se eu sei que D é verdade então, como ou não necessariamente D é verdadeira, ou não necessariamente eu acredito em D (opção que não pode se válida por sua negação já ser uma implicação de eu saber que D é verdade (C3)), a única opção que sobra é D não necessariamente ser verdadeira. (lei do silogismo disjuntivo)

Porém, como D já é uma proposição que contém o operador de necessidade, D não necessariamente ser verdadeira é equivalente a D não ser verdadeira.

Ou seja, se eu digo que sei que D é verdadeira (o que faço ao afirmar que o determinismo está correto) isso implica que o determinismo é falso, por D ser falsa, resultando em uma contradição.

Se eu sei que D é verdade então D não é verdade. A conclusão de se defender o determinismo é um absurdo lógico.

Conclusão

Por levar a uma contradição, o determinismo não pode ser uma tese verdadeira.

Portanto, sim, nós somos “livres para escolher”. No sentido de que nada nos determina, nada nos força a fazer ou acreditar a nada, não há um destino predeterminado para o qual necessariamente iremos seguir, mas sim uma série de possibilidades dentre as quais podemos escolher.

Somos nós que decidimos nosso destino.

Referências

Sword of Apollo — The Formal Refutation of Determinism and Validation of Free Will (blog, texto feito com o objetivo de tentar formalizar um pouco o argumento de Binswanger)

Harry Binswanger — A Refutation of Determinism

David Kelley — The Art of Reasoning

Cezar Mortari — Introdução à Lógica

Harry Gensler — Introduction to Logic

Richard Hammack — Book of Proof

P. D. Magnus — Forall X: Introductory Textbook in Formal Logic


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