Dilema do Ateísmo Clássico: Tréplica

Qualidade Alta

Este texto é uma resposta ao artigo de Carlos Alberto: A presença das coisas na eternidade segundo a mente de João de S. Tomás e Ruiz de Montoya: uma concórdia?

Eu desenvolvi um dilema que coloca o teísmo clássico em maus lençóis, isto é, dado o meu dilema, o teísmo clássico é falso. Me enviaram um texto de um “amigo”, Carlos Alberto, dizendo que o mesmo, no caso, o texto, responde ao meu dilema. Nem de longe, o texto apresentado, responde ao meu dilema. De fato, quem me indicou o texto, sequer de fato entendeu o meu dilema. De qualquer forma, eu irei responder ao texto, apresentando algumas inconsistências. Mas deixado bem claro que o texto, em si, passa longe de responder ao meu dilema. No final dessa resposta, eu explico o porquê. 

Como o texto que me enviaram, se trata de uma análise da posição de dois autores tomistas, eu irei me concentrar realmente nas ponderações do autor do texto quanto as posições dos autores. Portanto, irei ignorar a parte inicial, uma vez que se trata apenas de uma exposição das posições de ambos os autores. Eu irei apresentar as partes referentes ao texto em itálico. No referido texto, depois de exposta a posição de João de S. Tomás, tomista português, o autor, Carlos Alberto, tenta responder a uma objeção de Escoto. A parte do texto referente à objeção de Escoto:

Sabido é que Escoto busca refutá-la apontando que se todos os momentos fossem para Deus atuais e presentes, então, por consequência, Ele não saberia se determinada coisa está acontecendo, aconteceu ou acontecerá, posto que vê tudo de maneira atualíssima [18]. Não saberia, por exemplo, se dentre os momentos presencialmente conhecidos no “nunc stans” da eternidade, este ou aquele está ou não transcorrendo atualmente no tempo.

Na próxima parte, ele apresenta a seguinte resposta:

Contra Escoto respondemos que Deus conhece o “hic et nunc” (aqui e agora) atual das coisas, na medida em que o aqui e agora de cada uma delas corresponde ativamente a um decreto divino que passivamente é produzido no tempo. Desta forma, Deus conhece o “hic et nunc” de Pedro porque seu momento atual está ativamente contido nos termos da ação divina: Deus sabe que atualmente Pedro está correndo às sete horas da manhã, pois, a ação divina ativamente considerada predetermina este momento, e passivamente o produz (seja através da conservação do “esse” participado, da premoção ou do concurso simultâneo) no tempo. Em outros termos, o aqui e agora atual de todas as coisas não dispensa de nenhum modo a causalidade divina, que atinge e presencialmente contém o ser físico ou real dos entes na eternidade.

Há um nítido problema com essa reposta. Bem, eu devo dizer de antemão que concordo com a objeção do Escoto, embora, claro, com algumas ressalvas. Todavia, a resposta dada pelo Carlos Alberto, ou, aparentemente, a resposta que ele simplesmente parafraseou de alguém, eu realmente não sei, não é uma resposta adequada. Muito menos consistente. Deixe-me explicar! Frise na primeira parte: Contra Escoto respondemos que Deus conhece o “hic et nunc” (aqui e agora) atual das coisas, na medida em que o aqui e agora de cada uma delas corresponde ativamente a um decreto divino que passivamente é produzido no tempo. Veja, ele diz que, na eternidade, Deus conhece o “aqui e agora” de cada coisa, e esse “aqui e agora” passivamente é produzido no tempo.

O que ele quer dizer é que Deus sabe que, por exemplo, eu caso em 2019, na hora x e dia x, que João come carne ao invés de pão no dia x e hora x, etc. E isso é confirmado no resto da citação: Desta forma, Deus conhece o “hic et nunc” de Pedro porque seu momento atual está ativamente contido nos termos da ação divina: Deus sabe que atualmente Pedro está correndo às sete horas da manhã, pois, a ação divina ativamente considerada predetermina este momento, e passivamente o produz…. na eternidade, Deus conhece todos os momentos num só “instante” e, no tempo, esses momentos, aos poucos, vão se “estabelecendo”. Bem, o problema dessa resposta, é que o próprio autor do texto não entendeu a objeção do Escoto ou, possivelmente, Escoto não forneceu uma objeção que pudesse contemplar o real problema. Primeiro, deixe-me explicar o que o autor do texto quer dizer com eternidade ou, pelo menos, a implicação lógica da sua fala sobre eternidade.

Existe duas formas de uma coisa ser eterna. Primeira, uma coisa é eterna se for estendida infinitamente no tempo, aqui, eternidade está sendo definida como duração temporal. A segunda forma de eternidade, tem a ver com atemporalidade. Aparentemente, esse é o conceito de eternidade falado por Carlos Alberto, uma vez que ele faz uma distinção clara entre eternidade e tempo. Na eternidade, isto é, na atemporalidade, Deus conhece todos os momentos em um só, isso é basicamente dizer que Deus conhece todas coisas “ao mesmo tempo”, ou seja, atemporalmente.

Agora, veja que há uma diferença entre conhecer as coisas atemporalmente e conhecer as coisas temporalmente. Deus pode saber, por exemplo, que de fato Pedro corre às 7 horas, mas isso é diferente de saber que Pedro corre agora. Agora por que isso é diferente? Isso é mais fácil de ser explicado dada a diferença entre sentenças temporais e atemporais. O indexical “agora” refere-se ao tempo presente, isto é, conhecer que Pedro corre agora, é conhecer que Pedro corre no presente. Enquanto conhecer que Pedro corre às 7 horas, não é conhecer QUANDO Pedro corre. Sentenças que compreendem datas, na ausência de indexicais, são sentenças atemporais. Os indexicais são usados para situar as coisas em referência ao presente. Agora, claro, Carlos Alberto pode dizer que Deus conhece atemporalmente e temporalmente. Mas para Deus conhecer temporalmente ele precisa ESTAR NO TEMPO.

Não há como, Deus situado na eternidade, isto é, na atemporalidade, conhecer o que agora está ocorrendo. De novo, por que não? Simplesmente porque o conhecimento de Deus, nesse caso, estaria num fluxo constante. Isto é, Deus saberia que agora Pedro está correndo, porém, amanhã ele saberia que Pedro correu ontem. Isso pode parecer ferir a onisciência de Deus, porém, não fere. Deixe-me explicar! Considere a sentença “Pedro corre agora”, essa sentença é verdadeira, se de fato Pedro estiver correndo agora, Deus a conhece, porém, amanhã, essa sentença é falsa. Isto é, Pedro não corre agora amanhã, amanhã ele correu ontem. Logo, amanhã, Deus sabe que Pedro correu ontem. Veja, ao passo que o tempo passa, o conhecimento de Deus também muda. Isso é uma característica do que é temporal. Na eternidade, Deus contemplando todos os “momentos” em um só, Deus não sabe quando cada um dos momentos se dá no tempo. E se ele sabe, então, ele não está na atemporalidade, isto é, na eternidade. Claro, pode-se dizer que o conhecimento de Deus muda, mas ele ainda continua na eternidade\atemporalidade. Mas isso é impossível. Mudança é uma característica essencial do tempo. Se o conhecimento de Deus muda, é porque ele é temporal.

O problema do Carlos Alberto, e acho que esse é o problema de praticamente todos os tomistas, é pensar que o ‘aqui e agora” de cada criatura se resume ao “momento”, isto é, a data em que cada criatura performa alguma coisa. Saber, por exemplo, que Lula é presidente em 2002 no Brasil, não é saber de fato quando Lula é presidente. Porque o “quando” está atrelado ao tempo em que cada coisa toma lugar em referência ao presente.

E as datas não fazem esse trabalho, a menos, é claro, que você saiba que 2019 é PRESENTE. Ele, o Carlos Alberto, ou qualquer tomista, pode recorrer e dizer que o “aqui e agora” tem a ver realmente com o QUANDO de cada coisa. Mas como apontei acima, isso é impossível, a menos que você admita que Deus é temporal. E ainda há outro problema. Se ele, ou qualquer outro tomista, diz que Deus conhece QUANDO, na eternidade, cada criatura performa alguma coisa, dalém da objeção que levantei acima, quanto à mudança de conhecimento que ocorre em Deus, há ainda o comprometimento com a existência de tempos distintos, onde, cada um dos tais, expressa presentidade simultaneamente .

Para vocês entenderem. Se Deus conhece que João faz alguma coisa às 7 horas do dia x e ano x, no presente, e Deus conhece o que Marcos faz às 8 horas no dia y e ano y no presente é, praticamente, dizer que há dois tempos que são simultaneamente presentes. Há, no caso, uma contradição bem clara. Porque o ponto do Carlos, não é que Deus sabe que João faz algo no presente e depois que Marcos faz, mas que ambos fazem simultaneamente coisas diferentes, em tempos diferentes, no PRESENTE.

Agora, claro, ele pode dizer que Deus sabe isso, porém, seu conhecimento não o compromissa com a existência de tais tempos. Dá onde surge mais um problema. Basicamente, ele está dizendo que é possível Deus conhecer aquilo que não existe. Ou seja, Deus conhece que Marcos faz alguma coisa no presente, e João também. Porém, não há realmente tais coisas sendo feitas, ou melhor, tais tempos, que ocupam João e Marcos e os eventos que os mesmos participam, sequer existem.

O que no fim, é contraditório. Conhecer aquilo que ainda não existe, não é apenas logicamente impossível, é METAFISICAMENTE impossível. É possível dizer que Deus faz isso mesmo sendo contraditório? Sim, é possível! Mas abrimos precedente para que Deus performe tudo que é contraditório, não apenas isso. Um exemplo seria a criar uma pedra que é impossível que um ser todo poderoso levante. Sabemos que isso é contraditório, porém, dado que foi assumido que Deus pode conhecer aquilo que ainda não existe, por que no fim seria contraditório Deus criar uma pedra que não pode levantar?

Voltando ao texto, Carlos Alberto faz uma ponderação da interpretação de do João de S. Tomás do Doctor Angelicus:

Para Santo Tomás, por parte do entendimento divino encontra-se tão só um único ato cognoscitivo idêntico à sua mesma essência, não há, por consequência, lugar para dois atos intrinsecamente diversos e tampouco para duas realidades entitativamente distintas na eternidade. Por isso, para resguardar a unicidade e simplicidade do conhecimento divino, argumentamos que há uma dupla modalidade de uma mesma coisa presencialmente conhecida, ao invés de duas presenças diversas segundo duas modalidades entitativas distintas. Com este reparo cremos resguardar as grandezas da posição de João de S. Tomás, sem, no entanto, incorrer em suas misérias.

Para Josão de S. Tomás há duas presenças completamente distintas dos entes-futuro. Uma presença é física e a outra é objetiva. Quanto a presença objetiva, como diz o próprio Carlos, significa estar objetivamente presente na mente divina. A presença física significa não mais que a presença das criaturas em seu ser atual enquanto termos do ato criador considerado ativamente. Carlos rejeita isso, para ele, a presença é uma, porém, uma dupla modalidade de uma mesma coisa presencialmente conhecida. Ou seja, o ente-futuro-contigente se apresente de forma física e objetiva na eternidade para Deus. Há um sério problema com isso.

Eu entendo que o Carlos, assim como os demais tomistas, tenta a todo custa dizer que há uma certa superioridade nisso. Na forma em que eles concebem o ser de Deus. E, de alguma forma, ao você ataca-los, apresentando inconsistências em sua visão, eles rapidamente retrucam dizendo que você não os entendeu ou, simplesmente, as objeções que você apresenta não realmente são objeções, uma vez que o deus que eles concebem, ou as definições que eles dão a esse deus são imunes. Bem, eu não vou levar em conta essas coisas, e vou dizer o porquê isso que eles falam não faz sentido.

Quando ele diz que o mesmo existe na eternidade e apresenta-se de duas formas distintas, acredito que é isso que ele quer dizer com modalidade, se não for, então, ele simplesmente inventou alguma definição esquisita de modalidade, ele diz que essa coisa apresenta-se enquanto ideia, conteúdo do conhecimento de Deus, e enquanto ser atual, físico. Eu realmente não entendo o que ele quer dizer por “presencialmente” conhecida. Acredito que ele esteja tomando a posição de Boécio, de que Deus conhece todas as coisas enquanto um presente constante e eterno. Essa é a posição atualmente conhecida como teoria-B do tempo. Posição essa que, a meu ver, ele toma inconscientemente.

Voltando ao ponto, ao dizer que a coisa, presencialmente conhecida, se apresenta em duas modalidades distintas, ele está dizendo que a coisa existe enquanto ato e enquanto objeto do conhecimento. Se existe enquanto ato, então, significa que essa coisa existe. Eu, realmente, não entendo como algo pode existir enquanto ato na eternidade e não existir de fato. Eu entendo que os tomistas fazem uma distinção esquisita que consiste em existir no tempo e existir na eternidade. Mas eu rejeito tal distinção. Ou uma coisa existe ou não, a não ser que eles, os tomistas, estejam endossando algum meio termo entre existir e não existir. De qualquer forma, se entes “futuros” existem na eternidade, então, isso quer dizer que o futuro existe. O que não faz sentido é falar que entes FUTUROS existem na eternidade, eternidade aqui definida como atemporalidade. Na ausência de passagem temporal, obtemos apenas a atemporalidade, então, como pode alguma coisa futura existir na eternidade\atemporalidade? Isso não faz sentido!! Eu vou conceder isso apenas para mostrar o porquê esse artigo não pode ser tratado como uma resposta ao meu dilema. Considere o meu dilema:

P1 O futuro Existe OU o Futuro Não Existe

P2 Se o futuro existe, então, Deus não criou o mundo verdadeiramente

P3 Se o futuro não existe, então, Deus não conhece o futuro

P4 Se Deus não criou o mundo verdadeiramente, então, o teísmo clássico é falso

P5 Se Deus não conhece o futuro, então, o teísmo clássico é falso

C1. Se o futuro existe, então o teísmo clássico é falso (P2, P4 por SH)

C2 Se o futuro não existe, então o teísmo clássico é falso (P3, P5, por SH)

C3 o teísmo clássico é falso (P1, P2-C2, eliminação da disjunção)

Justificação do primeiro chifre do dilema: Não há um momento onde o mundo não existe de forma absoluta. Para dar um exemplo, digamos que Deus crie o mundo em t1, todavia, o mundo já existe em t2, uma vez que o futuro existe de igual modo que o presente, isso quer dizer que existe um momento em que o mundo não existe, porém, há outro momento em que o mesmo existe, e esses dois momentos existem em conjunto. Segue, portanto, que Deus não cria o mundo de forma absoluta.

Agora, note, se o futuro já existe na eternidade, seja lá o que ele queira dizer com isso, então, o modelo escolástico sofre com o primeiro chifre do meu dilema. Claro, eles podem argumentar que o futuro existe na eternidade, mas não no tempo, como eles de fato fazem. Mas isso não vai mudar o problema. Não importa como o futuro existe, basta apenas que o mesmo, o futuro, exista. Eu realmente não sei como eles podem fugir do meu dilema. Outro problema, que eles acabam endossando com a ideia de que Deus é eterno, além dos que já elenquei acima, é a impossibilidade de Deus ter criado o mundo. Eternidade, ao ser concebida como atemporalidade, eu sei que eles vão rejeitar essa definição, mas como falei acima, essa definição é a implicação lógica do modelo proposto por eles, fora que mesmo se eternidade for concebida como um tempo infinito, o mesmo problema que irei elencar aqui surge.

Bem, eu não entendo como causalidade pode ser concebida como um evento atemporal\eterno. Causalidade é uma relação diatíca que contempla dois entes, a saber, a causa e o efeito. E é uma relação assimétrica, enquanto, a causa precede o efeito, temos que essa precedência é temporal. Se concebemos que o tempo é mudança, eu falo mudança em termos de perda e aquisição de propriedades, e atemporalidade é ausência disso, então, não pode haver, na ausência de tempo, causalidade. O modelo escolástico, portanto, mais uma vez falha. Outra coisa, é a imutabilidade de Deus. Claro, atemporalidade implica em imutabilidade, uma vez que tempo requer mudança. Deus existindo “antes” do tempo – essa precedência não é temporal, mas atemporal – Deus existe sozinho, de forma atemporal, sem o mundo material. Obviamente, que Deus, ao criar o mundo, deixa de ser atemporal.

Isso porque ele passar a manter uma relação que outrora ele não tinha, a saber, a relação de criador. Podem dizer que Deus mantinha essa relação consigo mesmo, de algum modo, uma vez que as coisas existem para Deus na eternidade. Mas se as coisas já existiam, ou se Deus já mantinha de algum modo tal relação, então, ele não criou de fato o mundo material, uma vez que esse já existia. Eu, realmente, não consigo conceber como isso seja possível. E duvido que um tomista saiba explicar isso sem partir para um linguajar obscuro e vazio. Continuando, se Deus passa a manter uma relação que outrora não tinha, então, ele é mudou. Se ele mudou, ele não é mais atemporal. Eu sei que os tomistas irão negar isso, como é de esperar, dizendo que Deus não pode sofrer mudança porque, senão, ele não é perfeito.

Mas, sinceramente, eu não entendo o que o cu tem a ver com a cara. Se mudança é perda e aquisição de propriedades, o porquê Deus deixaria de ser perfeito se ele adquirisse novas propriedades ou perdesse outras? Outra coisa, a perfeição de Deus está atrelada a sua onisciência, onipotência, onipresença e perfeição moral, essas são propriedades intrínsecas. E Deus não pode perde-la sem, com isso, perder sua essência, ou seja, quem ele realmente é. Mas além dessas, há propriedades que não são fundamentais para o seu caráter. Por exemplo, Deus poderia criar um elefante cor de rosa, isso o faria ter a propriedade de ter criado um elefante cor de rosa. Todavia, tal propriedade não é fundamental para ele. Ele pode existir e ser quem ele é, independente de ter ou não essa propriedade.

Considerando agora a próximo a parte do texto do Carlos Alberto em que ele pondera agora a posição de Ruiz de Montoya:

Em primeiro lugar, cabe assinalar que a posição do jesuíta goza de algum acerto, como quanto à raiz adequada do conhecimento divino: o ser intrínseco ou atual das coisas na eternidade. O teólogo espanhol acerta onde erra João de S. Tomás. De fato, há apenas uma raiz adequada do ato cognitivo divino, se com isto se entende aquela presença das coisas na eternidade que manifestam, não obstante, uma dupla modalidade, ou nas palavras do nosso autor, uma dupla raiz embora inadequada. Contudo, não concedemos de nenhuma forma que semelhante presença se realize unicamente através da capacidade representativa da essência divina, que sem os decretos eternos permanece reclusa a representar tão somente os possíveis (como partícipes ad extra da essência e omnipotência de Deus), mas não os futuros e os futuríveis.

Essa última parte, vou relacionar com o segundo chifre do meu dilema. Justificação do segundo chifre do dilema: Conhecimento é possível por duas vias, conhecimento por contato e conhecimento proposicional, ou seja, conhecimento por proposições, “saber que p”. Se o futuro não existe, então, Deus não pode conhece-lo por contato, da mesma forma, não pode conhecer, agora, proposições sobre o futuro, pois tal como não há um futuro, não há agora proposições VERDADEIRAS sobre o mesmo.

Em suas ponderações sobre a posição do Ruiz, ele parece concordar com ele em alguns pontos que, a meu ver, são bem problemáticos. Não bastando as objeções que fiz acima, devo levar em conta ainda que mesmo no modelo tomista Deus não conhece de fato o futuro. Já conversei com alguns tomistas o suficiente para notar que eles rejeitam a existência do futuro enquanto ato na temporalidade. Porém, aceitam que Deus conhece o futuro enquanto ato, além de enquanto objeto do conhecimento, na eternidade. Se eternidade é atemporalidade, pois, a meu ver essa é a conclusão logicamente derivada das premissas tomistas, então, temos que Deus não conhece o futuro.

Aqui estou rejeitando essa ideia de que o futuro existe na eternidade, embora, tenha assumido isso anteriormente, para fins meramente didáticos, agora estou a rejeitar tal posição. Tal posição, levando em conta tudo o que disse até agora, é falsa e contraditória. Um instante temporal pode ser tomado como um conjunto de eventos simultâneos, uma substância contingentemente preenchida por eventos ou como um conjunto de proposições verdadeiras.

Eu vou assumir a aqui a primeira teoria sobre a natureza dos instantes temporais. Que, a meu ver, é a que é assumida pelos tomistas, claro, entendo aqui evento como intercambiável a mudança. Se atemporalidade é ausência de tempo, então, temos que não há mudança, por si só, não há instantes temporais. Ou seja, na eternidade não há instantes futuros, pois, se tal fosse o caso, teríamos que há temporalidade na atemporalidade, o que é absurdo. Agora, mesmo que assumamos a teoria tomista, de que Deus conhecer o que para nós seria futuro, ele não conhece o futuro em si. E vou explicar o porquê isso é o caso, mesmo assumindo que Deus existe na eternidade.

Essa objeção eu chamo de aboutness. Suponha que o futuro existe, segue que o que quer que seja futuro, instância a propriedade de futuridade, isto é, se tal coisa existe no futuro, então, instância propriedade temporal de ser futuro. Um instante futuro é um instante temporal. Se eternidade contempla atemporalidade, e tal evento, que existe no futuro, existe na eternidade, então, tal evento não instância a propriedade de ser futuro. Se Deus conhece tal evento, ele não conhece o futuro.

Pois, para conhece-lo, Deus teria que conhecer o evento que instância a propriedade de ser futuro. Temos que, uma vez que tal evento não existe na temporalidade – sequer faz sentido falar que existe evento na eternidade, mas tudo bem, vamos conceder isso – então, se Deus o conhece, não conhece um evento futuro. Ainda que tal evento exista na temporalidade, se Deus o contempla apenas na eternidade, Deus ainda não conhece o futuro. Para conhece-lo, conhecer o evento futuro, Deus teria que conhecer o evento que instância futuridade\temporalidade. Esse evento pode existir na eternidade, o que eu disputo, obviamente, mas mesmo assim, podemos concluir que Deus não conhece o futuro de fato.

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