Deduzindo a Ética Argumentativa com a Lógica Proposicional  – Resposta ao Argumento do Zap – Pt I

Renan Leonardi da Silva
renan.virtual@hotmail.com

Entusiasta libertário estudante de economia, e de filosofia nas horas vagas.

O presente texto é a resposta ao argumento do Zap (frequentemente chamado de “Pergunta do Zap”, embora o autor pareça não gostar deste apelido para seu argumento), um argumento feito por Nicholas Ferreira em seu blog “Pensamentos Esquecíveis” contra a Ética Argumentativa Hoppeana.

O argumento de Nicholas Ferreira consiste na negação da validade do argumento pela contradição performativa, pois ele alega que a contradição performativa, diferentemente da contradição de termos, não é um método válido para se encontrar posições lógicamente inválidas. Além disso, em seu segundo texto (na continuação do anterior) ele aborda um segundo argumento focado na justificação monológica de normas.

Meu objetivo com este texto é utilizar a lógica proposicional para demonstrar que a contradição performativa diz o mesmo a respeito da validade de proposições que a contradição de termos, sendo, assim, o argumento pela contradição performativa é perfeitamente válido. Além de demonstrar o porquê de justificações monológicas de normas serem inválidas e de apenas argumentações poderem ser utilizadas para se defender normas logicamente.

Primeiramente, pretendo abordar brevemente sobre a natureza da contradição performativa e da contradição de termos, posteriormente analisarei cada um dos dois artigos de Nicholas Ferreira, Breves comentários sobre a ética argumentativa hoppeana e Outros breves comentários sobre a ética argumentativa hoppeana, e, por fim, deduzirei a Ética Argumentativa através da lógica proposicional e demonstrarei a validade do argumento pela contradição performativa.

Para quem não conhece sobre a lógica proporcional, ou a lógica em si como ciência, recomendo que leia meu texto Introdução à Lógica Formal, assim como os textos do próprio Nicholas Ferreira, Lógica BásicaOperadores, simbolismo, tabela verdade e equivalência e Formalização, regras de inferência e métodos de prova e refutação, são todos muito bons.

Breves Comentários sobre a Contradição Performativa e a Contradição de Termos

A contradição de termos comum da lógica proposocional ocorre quando duas proposições contraditórias são explicitamente afirmadas como verdadeiras, conforme o exemplo de Nicholas Ferreira:

“Se uma proposição p afirma que um pentágono possui apótema e outra proposição q afirma que pentágonos não possuem apótema, então é necessário que o valor verdade de uma proposição seja diferente do da outra, pois ambas são mutuamente excludentes, impossíveis de serem ou ambas verdadeiras ou ambas falsas, já que se pentágonos não possuem apótema, então não há como haver um pentágono que o possua, e se pentágonos possuem apótema, então não pode existir um que não o possua. Portanto, afirmar ambas as proposições (um pentágono possui e não possui um apótema) é o mesmo que afirmar a conjunção das duas (p∧q), o que é incorrer numa contradição, uma vez que uma é a negação da outra (p∧¬p), e uma proposição contraditória é falsa por definição. Formalizando, ((p∧q)⇔(p∧¬p)⊢⊥).”

É claro, isso é um pouco diferente da contradição performativa, afinal esta identifica uma contradição entre uma proposição explicitada pelo argumentador e uma implícita em seu ato de argumentar. Conforme define Habermas:

“Apel renova o modo da fundamentação transcendental com os meios fornecidos pela pragmática linguística. Ao fazer isso, utiliza o conceito de contradição performativa, que surge quando um ato de fala constatativo ‘Cp’ se baseia em pressuposições não-contingentes cujo conteúdo proposicional comtradiz o enunciado asserido ‘p’. Partindo de uma reflexão de Hintikka, Apel ilustra o significado das contradições performativas para a compreensão de argumentos clássicos da filosofia da consciência com base no exemplo do ‘Cogito ergo sum’. Se exprimirmos o juízo de um oponete sobre a forma do ato de fala: ‘Duvido que eu exista’, o argumento de Descartes poderá ser reconstruído com a ajuda de uma contradição performativa. Para o enunciado:
(1) Eu não existo (aqui e agora)
o falante ergue uma pretensão de verdade; ao mesmo tempo, ao proferi-la, ele faz uam inevitável predisposição de existência cujo conteúdo proporcional pode ser expresso pelo enunciado:
(2) Eu existo (aqui e agora)
(sendo que, em ambas proposições, o pronome pessoal refere-se à mesma pessoa).” (HABERMAS, Jürgen. Notas Pragmáticas para a Fundamentação de uma Ética do Discurso.)

E conforme explica Marian Eabrasu:

“A ideia de ‘contradição performativa’ denota uma inconsistência entre agir e dizer. Proferir uma sentença performativa é tornar explícita qual ação se está realizando. Casos paradigmáticos de performativos envolvem dizer algo que, pelo próprio ato de se dizê-lo, constitui um ato do tipo mencionado (Searle 1969). Por exemplo, dizer ‘eu prometo que o encontrarei no cinema’ é uma promessa em si. Uma contradição performativa ocorre quando o agente nega as condições sem as quais sua ação não aconteceria. Esse tipo de contradição torna-se óbvio no discurso verbal quando alguém nega o que é requerido para seu próprio discurso. Por exemplo, é absurdo dizer ‘não existem declarações’. Esta declaração contradiz sua conditio sinequa non: exige-se uma declaração para se dizer ‘não existem declarações’. Mutatis mutandis, é absurdo dizer: ‘Eu não estou vivo’. Essa afirmação contradiz outra afirmação (‘eu estou vivo’) que é a conditio sinequa non para se formular a afirmação anterior. Contrariamente, uma pessoa não pode afirmar estar morta sem contradizer o próprio fato de que ela tem que estar viva para dizer ‘eu estou morta’. (EABRASU, Marian. Uma Resposta às Críticas Correntes Formuladas Contra a Ética Argumentativa Hoppeana.)

Ressalto aqui o fato de as pressuposições da declaração com as quais a declaração contraditória entra em contradição performativa têm conteúdo proposicional (conforme explica Habermas na citação acima), este detalhe é bem importante. É por esse motivo que digo que são “proposições implícitas”.

Assim, a contradição performativa da filosofia pragmática de Apel, Habermas e Hoppe consiste numa contradição entre a proposição proferida explicitamente e uma aceita implicitamente por ser uma pressuposição necessária para o ato de se proferir a outra.

Breves Comentários sobre Breves Comentários sobre A Ética Argumentativa Hoppeana

Zap em seu texto começa introduzindo a Ética Argumentativa Hoppeana, com um foco no argumento pela contradição performativa para a autopropriedade, e, depois, estabelece seu argumento contra.

Segundo ele a contradição performativa ocorre apenas entre a proposição do indivíduo e uma preferência subjetiva assumida por ele contingentemente durante a argumentação ao se negar a autopropriedade. O argumento se Zap seria que, sendo esta preferência algo contingente sobre o reconhecimento subjetivo do indivíduo, ela é algo que não falaria sobre normas e sim sobre uma descrição de sua preferência contingente.

“Se há uma disjunção exclusiva (operador XOR, para quem está familiarizado com programação) entre ambas as proposições, então é necessário que uma seja verdadeira enquanto a outra seja falsa. Não há como ambas serem verdadeiras nem ambas serem falsas, pois o valor-verdade de ambas deve ser diferente, dada a própria natureza do operador lógico. É a violação disto o que caracteriza uma contradição. Dessa forma, caso tal contradição fosse logicamente válida, chegaríamos à conclusão de que ou eu reconheço a norma de autopropriedade como válida, ou é permitido agredir. Porém, se isso fosse verdade, então seguiria, logicamente, que se eu não reconhecer a norma de autopropriedade como válida (¬r), então é permitido agredir (s).”

Aqui já posso adiantar algumas de minhas críticas ao argumento de Nicholas:

A contradição performativa não se dá, de forma alguma, entre a proposição e as preferências do indivíduo. Muito pelo contrário, a ideia do argumento pela contradição performativa não é de que a contradição se dá com esta preferência pressuposta, mas sim com uma proposição implícita no ato que é aceita e pressuposta por quem faz a declaração. Existe uma diferença clara em dizer que o indivíduo reconheceu que “a autopropriedade é válida” e que o indivíduo reconheceu que “ele mesmo reconhece a autopropriedade como válida”.

Obs.: aqui me refiro a este trecho do texto de Nicholas:

“Porém, se tentarmos formalizar esta contradição, ver-nos-emos presos em um problema. Se r é o reconhecimento da norma de propriedade como válida (o que pode ser “convertido” para a proposição “eu reconheço a norma de autopropriedade como válida”) e s é a afirmação de que é permitido agredir, então se ocorre uma contradição performativa, ou r ou sestá errado, enquanto o que restar está correto.
 r:= “Eu reconheço a norma de autopropriedade como válida”
 s:= “É permitido agredir”
Dada a contradição performativa, tem-se que (r ⊻ ¬s) ⇔ (¬r ⊻ s).”

Quando se diz que há o reconhecimento implícito da norma da autopropriedade este reconhecimento não é “Eu reconheço a norma de autopropriedade como válida”, mas sim “A norma de autopropriedade é válida”. Note que nesta parte do argumento não se diz, ainda, nada sobre ela realmente ser ou não válida, apenas sobre o seu reconhecimento implícito.

Este detalhe faz uma diferença crucial, já que o que é reconhecido não é o próprio reconhecimento, ou as preferências subjetivas do indivíduo, mas sim a norma em si, que entra em contradição com a negação desta norma numa proposição explicitada.

E, ainda que o indivíduo tenha reconhecido seu próprio reconhecimento, isto não seria uma demonstração de preferência, mas sim o reconhecimento da norma, pois o fato de ele reconhecer que reconheceu a norma implica que ele reconheceu a norma, logo, se tivéssemos a proposição R:= “Eu reconheço a norma da autopropriedade como válida”, ela, dentro da estrutura argumentativa do discurso do indivíduo e não ainda na realidade dos fatos (aqui ainda falo apenas dos reconhecimentos durante a argumentação) implicaria R’ := “A norma da autopropriedade é válida”, não no sentido de que ela é válida apenas porque o indivíduo a reconheceu (afinal, conforme acabo de explicar, estou apenas falando da estrutura argumentativa e dos seus reconhecimentos no momento), mas sim que se R é assumido como verdadeiro pelo indivíduo então R’ também é assumido como verdadeiro por ele. Fato que coloca a predisposição R fora do âmbito das preferências subjetivas e no âmbito das normas assumidas, pois R ⇒ R’. Isso por si só ainda não diz nada sobre a realidade dos fatos, diz apenas sobre um reconhecimento implícito, porém o argumento de Hoppe não para por aí.

Poder-se-ia argumentar, também, como Zap faz, que o reconhecimento é contingente, ou seja, ocorre apenas durante o ato argumentativo. Isso é verdade, porém não nega de forma alguma o argumento hoppeano. É parte integral da Ética Argumentativa, e de extrema importância para a mesma, a demonstração de que apenas em argumentações (ou seja, em justificações intersubjetivas de proposições) normas podem ser defendidas e descobertas como verdadeiras (parte importante da teoria de Habermas que Hoppe utiliza como base). O fato de que a norma da autopropriedade não pode ser logicamente negada numa argumentação, quando colocado em conjunto com esta demonstração, nos prova que a única norma que poderá ser logicamente defendida será aquela que respeita a autopropriedade, o que exclui todas as outras possíveis normas da possibilidade de serem válidas.

Breves Comentários sobre os Outros Breves Comentários sobre a Ética Argumentativa Hoppeana

O segundo texto de Nicholas Ferreira se foca mais na ideia de que normas devem ser justificadas no curso de uma argumentação.

O texto começa com uma série de reclamações sobre a escrita de Hoppe, as quais não comentarei pelo fato de concordar com Nicholas. Hoppe escreve muito mal, realmente, principalmente no que se refere à organização das ideias, ele fragmenta partes de seu argumento não apenas em capítulos diferentes mas em textos fora em diferentes livros ou meios, enquanto repete outras partes em diversos destes textos, além de muitas vezes repetir com outras palavras, gerando uma confusão tremenda. Tenho que concordar com o Zap, a escrita de Hoppe é realmente horrorosa. Aliás, até que eu começasse a entender a Ética Argumentativa por completo demorou um bom tempo, quem estava nos grupos de debate talvez se lembre dos meus posts “Sobre a Ética Argumentativa” nos quais fazia resumos do que havia entendido da teoria, assim como perguntas, pegando sugestões de textos novos e etc., juntar todos esses fragmentos não é tão simples.

Mas voltando ao argumento de Nicholas e deixando de lado a má escrita de Hoppe, discordo de seu argumento sobre a argumentação. Seu ponto é, sucintamente, que podemos justificar proposições e normas fora de uma argumentação, o que faria com que a Ética Argumentativa estivesse errada.

Isso está incorreto, pelo menos quanto à parte das normas. Primeiro acho importante ressaltar que Hoppe utiliza a definição de argumentação de Habermas, definição que fica muito mal explicada graças à má escrita, uma justificação intersubjetiva de proposições. E, em segundo lugar, também acho importante ressaltar que a demonstração da tese de que normas podem apenas ser justificadas numa argumentação é feita por Habermas, demonstração com a qual Hoppe concorda e usa como base, o princípio da universalização habermasiano.

Sobre o argumento do Zap…

Nicholas parece fazer uma confusão entre argumentação e debate, ao dizer, por exemplo, que um texto sendo escrito e depois lido por outra pessoa não seria uma argumentação. Incorreto, não seria um debate, mas seria sim uma argumentação, pois é uma justificação de proposições, e é intersubjetiva (afinal temos mais de uma pessoa envolvida neste processo).

Esta minha crítica ao seu argumento ainda não o refuta, já que ele vai mais a fundo. Em seu texto Ferreira afirma que, mesmo que uma atividade assim fosse uma argumentação, proposições ainda poderiam ser justificadas por um indivíduo sozinho, escrevendo um texto apenas para si mesmo por exemplo, aquilo que Habermas chamaria de uma justificação monológica. Aí que está o erro, pois o princípio da universalização que Habermas utiliza demonstra que justificações monológicas não podem ser utilizadas para se justificar normas, e, embora Nicholas afirme que não ve motivo para tal afirmação, este motivo existe. Aqui meu texto anterior:

“Qualquer justificação é uma busca pela resolução de discordâncias ou incertezas, no caso de uma justificação sobre normas a discordância ou incertezas que se busca resolver é um conflito, pois normas servem para resolver conflitos, daí conclui-se que nenhuma norma pode ser justificada monologicamente, já que os envolvidos no conflito não seriam capazes nem mesmo de saber sobre a resolução se ela fosse justificada monologicamente. É exatamente por isso que toda a justificação de normas deve ser feita no curso de uma argumentação. Isso já faz desabarem completamente todos os argumentos monológicos contra a Ética Argumentativa, aqueles que dizem que uma pessoa pode justificar normas apenas consigo mesma, bom… estes argumentos caem numa contradição performativa.”

Ou seja, se a justificação de normas serve para resolver conflitos não faz sentido justificá-las de uma forma que não leve à resolução destes conflitos.

Para mais informações recomendo A Pragmática e os Fundamentos Pragmáticos da Ética.

Deduzindo a Ética Argumentativa com a Lógica Proposicional

Aqui chegamos no ponto vital de meu texto e na minha fundamentação da contradição performativa na lógica proposicional. A seguir buscarei demonstrar o argumento hoppeano ponto a ponto com o uso da lógica proposicional, mostrando como o argumento pela contradição performativa pode sim ser utilizado para se provar a teoria de Hans Hermann Hoppe.

Mas, antes, algumas notas sobre a contradição performativa, e sobre a ideia geral da qual o resto desta sessão germinará.

Contradição Performativa

Meu insight sobre o tema, de forma geral, consiste na ideia de que uma pressuposição da argumentação pode ser descrita como uma proposição que é implicação de qualquer possível argumento, inclusive do específico que cai na contradição performativa, demonstrando, assim, como esta contradição, embora diferente em muitos aspectos, carrega as mesmas informações a respeito de validez que qualquer outra.

Por exemplo: suponha que haja a proposição P, porém esta proposição é negada por uma pessoa; caso esta pessoa caísse numa contradição performativa isso significaria, segundo este meu método de análise, que sua proposição ¬P implicaria em P.

Mas como isso poderia ocorrer? Da seguinte forma: a proposição ¬P, neste exemplo, implicaria a proposição ¬P*, sendo ¬P* := “eu fiz a proposição ¬P”, e esta, por sua vez, implicaria na proposição “eu fiz uma proposição” (chamarei-a de P’ por hora), e esta proposição (P’) implicaria na proposição que não pode ser negada sem que se caia numa contradição performativa (no nosso exemplo genérico, P), pois ela seria uma pressuposição da ação de se fazer uma proposição.

Assim saberíamos que ¬P ⇒ ¬P* ⇒ P’ ⇒ P.

Ou seja, ¬P ⇒ P. Se ¬P ⇒ P temos, claramente, um caso no qual ¬P não pode ser verdadeira, demosntrarei isso numa tabela verdade.

Aqui temos nossa tabela verdade com nossas 3 proposições, P, ¬P e ¬P ⇒ P, com todas as possíveis combinações de V(verdadeiro) e F(falso) para as 3 proposições, algumas destas combinações não são válidas logicamente, buscarei eliminá-las a seguir.

Primeiro tratei de eliminar todos os casos nos quais ¬P ⇒ P não é verdadeira, pois neste exemplo a implicação foi estabelecida como verdadeira, estamos aqui apenas analisando o que ocorre caso ela seja verdadeira, motivo pelo qual faz pouco sentido considerar possibilidades nas quais ela não o seja.

Em segundo lugar tratei de eliminar qualquer possibilidade na qual ¬P seja verdadeiro e P falso, pois este é o resultado da implicação lógica, se ¬P ⇒ P é verdadeiro ¬P não pode ser verdadeiro sem que P também o seja.

E, por fim, tratei de eliminar todas as possibilidades nas quais ¬P e P são simultaneamenre verdadeiros ou simultaneamente falsos, pois se um é a negação do outro isso não é logicamente possível.

Conforme pode ser observado, se ¬P ⇒ P sobra apenas uma opção, P é necessariamente verdadeiro.

Com este método de se analisar a contradição performativa tudo fica muito claro, basta demonstrar que a negação de tal proposição implica em P’, e que P’ implica nela, que isso resultará no fato de que sua negação implica nela mesma, consequentemente ela é provada por contradição.

A seguir analisarei toda a Ética Argumentativa desta forma. Já adianto que para isso será necessária a criação de uma série de proposições, assim como de uma série de símbolos para representá-las, alguns deles, infelizmente, menos criativos que outros.

Axiomas da Ação Humana

Começando a derivação com a base praxeológica de Hoppe:

Ação := manifestação da vontade
Fim := aquilo que é buscado em uma ação
Meio := aquilo que é empregado para se chegar a um fim
Uso := empregar um meio para chegar a um fim

Humanos agem := A
Humanos agem para buscar fins := F
Humanos agem usando meios := M
Eu fiz uma proposição := P’
Eu agi := A’
Eu busquei um fim := F’
Eu usei um meio := M’

¬A ⇒ P’
P’ ⇒ A’
A’ ⇒ A
∴ ¬A ⇒ A

¬F ⇒ P’
P’ ⇒ F’
F’ ⇒ F
∴ ¬F ⇒ F

¬M ⇒ P’
P’ ⇒ M’
M’ ⇒ M
∴ ¬M ⇒ M

A, F e M provados por contradição.

A passagem de P’ para A’ se deve ao fato de que fazer uma proposição é uma forma de ação, e a de P’ para M’ pelo fato de que pelo menos o tempo é utilizado como meio de qualquer ação.

Teoria dos Conflitos de Hoppe

Conflito := pessoas com a vontade de usar um mesmo meio para fins conflitantes
Fins conflitantes := fins cuja busca de um exclui a possibilidade da busca do outro
Norma := regra que diz como humanos devem ou não devem agir
Resolver o conflito := dizer quem tem o direito de usar o meio quando há um conflito
Evitar conflitos := não levar a conflito algum se for seguida por todos

C := pessoas não podem usar um mesmo meio para fins conflitantes (trivial)
N := uma norma é uma regra que diz como humanos devem ou não devem agir (trivial)
Q := normas dizem quais fins humanos devem ou não devem buscar
W := normas dizem quem tem o direito de usar cada meio
E := normas devem definir quem tem o direito de uso exclusivo de cada meio
D := normas devem definir quem tem o direito de uso definitivo de cada meio
U’ := se a pessoa não tem vontade de que o meio que usou seja usado por outro a pessoa ainda busca um fim com o meio
U’’ := a pessoa não tem vontade de que o meio que usou seja usado por outro a pessoa ainda está usando o meio
T := normas devem resolver conflitos
Y := normas devem evitar conflitos

(N ∧ F) ⇒ Q
(C ∧ M ∧ Q) ⇒ W
(W ∧ C) ⇒ E

F ⇒ U’
(U’ ∧ M) ⇒ U’’

(E ∧ U’’) ⇒ D
(W ∧ M) ⇒ (W ⇔ T)

((W ⇔ T) ∧ (C ∧ M ∧ Q ⇒ W)) ⇒ (C ∧ M ∧ Q ⇒ T)

(T ∧ U’’) ⇒ Y

∴ (N ∧ F ∧ C ∧ M) ⇒ (E ∧ D ∧ T ∧ Y)

Como C e N são definições, e definições são apenas denotações, não são negáveis logicamente…

(¬E ∨ ¬D ∨ ¬T ∨ ¬Y) ⇒ (¬F ∨ ¬M)

Porém, conforme já vimos, ¬F ⇒ F, e ¬M ⇒ M, o que torna estas proposições necessariamente falsas. Logo E, D, T e Y são necessariamente verdadeiras.

Ética do Discurso

Justificação := dar razões para
Argumentação := justificação intersubjetiva de proposições
Monólogo := justificação não-intersubjetiva de proposições

I := argumentação é uma justificação intersubjetiva de proposições (trivial)
J := uma justificação busca provar que uma proposição é verdadeira ou falsa (trivial)
J’ := uma justificação busca resolver uma questão
O := uma justificação sobre normas busca provar que proposições sobre normas são verdadeiras ou falsas (trivial)
S := uma justificação sobre normas busca resolver conflitos
G := para que um conflito seja resolvido todos os envolvidos devem estar cientes da resolução
K := apenas argumentações são capazes de comunicar o resultado de uma justificação à outras pessoas
Z := apenas justificações intersubjetivas são válidas para resolver conflitos
X := apenas argumentações são válidas para se justificar normas
V := todos os possíveis participantes de um conflito devem ser contemplados na justificação de sua resolução
B := argumentação é uma forma de ação
Ω := um possível participante de um conflito é um ser capaz de agir
V’ := todos que têm capacidade argumentativa devem ser contemplados na justificação da resolução de um conflito
V’’ := apenas normas universalizaveis para todos com capacidade argumentativa são válidas

J ⇒ J’
(J’ ∧ O ∧ T) ⇒ S
I ⇒ K
(S ∧ K) ⇒ G

G ⇒ Z
Z ⇒ X
G ⇒ V
(V ∧ B ∧ Ω) ⇒ V’
(V’ ∧ S) ⇒ V’’

∴ (I ∧ J ∧ O ∧ N ∧ F ∧ C ∧ M) ⇒ V’’

Como I, J, O, N e C são definições…

¬V’’ ⇒ (¬F ∨ ¬M)

Porém, ¬F ⇒ F, e ¬M ⇒ M, logo V’’é necessariamente verdadeira.

Autopropriedade

Corpo := meio mínimo e primário para a ação.
Agressão := iniciar o uso da força contra alguém contra sua vontade.
Iniciar o uso da força contra alguém contra sua vontade. ⇔ Iniciar um uso de um meio contra alguém tendo um fim conflitante com o seu.
H := pessoas têm o direito de uso exclusivo do próprio corpo.
H* := eu argumentei que ¬H
Ψ := eu argumentei
Δ := eu argumentei com algum oponente
Δ’ := meu oponente está participando da argumentação comigo
Δ’’ := meu oponente está agindo
Δ’’’ := meu oponente está usando meios
Δ’’’’ := meu oponente está usando seu próprio corpo
H’ := usar o corpo de meu oponente para um fim conflitante com o seu o impedirá de agir (trivial, pela definição de corpo)
H’’ := agredir meu oponente o impedirá de argumentar
H’’’ := não devo agredir o corpo de meu oponente

(¬H ∧ X) ⇒ H*

H* ⇒ Ψ

Ψ ⇒ Δ

Δ ⇒ Δ’

Δ’ ⇒ Δ’’

Δ’’ ⇒ Δ’’’

Δ’’’ ⇒ Δ’’’’

(Δ’’’’ ∧ H’) ⇒ H’’

H’’ ⇒ H’’’

H’’’ ⇒ H

∴ ¬H ⇒ (H ∨ ¬X)

(H ∨ ¬X) ⇒ (H ∨ ¬Z)

(H ∨ ¬X) ⇒ (H ∨ ¬G)

(H ∨ ¬X) ⇒ (H ∨ ¬S ∨ ¬K)

(H ∨ ¬S ∨ ¬K) ⇒ (H ∨ ¬S ∨ ¬I)

(H ∨ ¬S ∨ ¬I) ⇒ (H ∨ ¬I ∨ ¬J’ ∨ ¬O ∨ ¬T)

(H ∨ ¬I ∨ ¬J’ ∨ ¬O ∨ ¬T) ⇒ (H ∨ ¬I ∨ ¬J ∨ ¬O ∨ ¬T)

(H ∨ ¬I ∨ ¬J ∨ ¬O ∨ ¬T) ⇒ (H ∨ ¬I ∨ ¬J ∨ ¬O ∨ ¬C ∨ ¬M ∨ ¬N ∨ ¬F)

Como I, J, O, C e N são triviais…

¬H ⇒ (H ∨ ¬M ∨ ¬F)

¬H ⇒ H já é uma contradição performativa, e, ¬M ⇒ M, assim como ¬F ⇒ F, ou seja, mais duas contradições performativas, ou seja, qualquer negação de H é necessariamente falsa por cair em uma destas contradições.

Homesteading

L := Humanos não podem ser fisicamente impedidos de se apropriar de meios ainda não apropriados
L’ := o direito de uso que uma pessoa ganha de um meio deve ser exclusivo e definitivo
Σ := eu argumentei ¬L’
Φ := eu argumentei sobre normas
Π := eu estou buscando resolver conflitos
Θ := eu busco uma norma que resolva e evite conflitos

H ⇒ L
¬L ⇒ ¬H

¬H ⇒ H

H ⇒ L
∴ ¬L ⇒ L

(¬L’ ∧ X) ⇒ Σ

Σ ⇒ Φ

(Φ ∧ S) ⇒ Π

(Π ∧ (T ∧ U’’ ⇒ Y)) ⇒ Θ

(Θ ∧ E ∧ D) ⇒ L’

¬L’ ⇒ (L’ ∨ ¬Θ ∨ ¬E ∨ ¬D)

⇒ (L’ ∨ ¬Θ ∨ ¬F ∨ ¬M)

⇒ (L’ ∨ ¬F ∨ ¬M)

Ou seja, qualquer negação de L’ cairá numa contradição, ou porque ¬L’ implicará em L’, ou porque implicará em ¬F (que sendo que ¬F ⇒ F), ou porque implicará em ¬M (sendo que ¬M ⇒ M).

Finalização

Enfim, a Ética Argumentativa não é nada mais nada menos que V’’ ∧ H ∧ L ∧ L’, logo, uma negação dela consiste em ¬V’’ ∨ ¬H ∨ ¬L ∨ ¬L’, e como qualquer uma destas proposições (¬V’’ ∨ ¬H ∨ ¬L ∨ ¬L’), de forma direta ou indireta, levará a uma contradição performativa, somos capazes de saber, com certeza, por aquele modelo na tabela verdade, que a única opção lógica restante é a defesa da Ética Argumentativa.

Referências

Richard Hammack — The Book of Proof

P.D. Magnus — Forall X: Introductory Textbook in Formal Logic

Aristóteles — Organom

Hans Hermann Hoppe — A Ciência Econômica e o Método Austríaco

Ludwig von Mises — Ação Humana

Jürgen Habermas — Notas Pragmáticas para a Fundamentação de uma Ética do Discurso

Karl-Otto Apel — The Problem of Philosophical Foundations in Light of a Transcendental Pragmatics of Language

Robert Alexy — Teoria da Argumentação Jurídica

Hans Hermann Hoppe — Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo

Hans Hermann Hoppe — A Ética e a Economia da Propriedade Privada

Hans Hermann Hoppe — Argumentation Ethics (PFS 2016)

Marian Eabrasu — Uma Respostas às Críticas Correntes Formuladas Contra a Ética Argumentativa Hoppeana

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1 Comentário
  • Dias
    24/08/2020

    tudo bem? gostei muito do seu site, parabéns pelo conteúdo. 😉

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