Carências Explicadas

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Pedido de Desculpas a Bauman

Bem, há algum tempo que Zygmunt Bauman alerta para os problemas do mundo líquido e de como nossas relações parecem se tornar cada vez mais efêmeras e cada vez mais longes de resolverem nossa necessidade de convívio social.

Se qualquer homem são normalmente concordaria com Bauman em muitos dos seus diagnósticos, talvez hajam questões para homens não tão sãos que pareçam nunca exploradas por ele sob as quais valha a pena se prostar dentro dos limites mais diretos do seu diagnóstico.

Afinal, porque estamos tão carentes?

A grande questão em torno da carência parece repousar em cima de um tipo de solidão que precisa do outro para ser curada. Trata-se de uma solidão específca que consiste na necessidade do próximo. Bem, essa carência pode ser expressa de três formas imediatas:

  • Física: A carência física parece ser a que é atrelada ao tocar no próximo, geralmente é tida como um calor, seja afetivo, seja sexual que é responsável por nos fazer procurar o corpo do próximo.
  • Emocional: A carência emocional parece ser a que é atrelada às atitudes do próximo e não pode ser respondida pelo elemento físico, eis que podemos estar submetidos a situações de carência emocional ainda que tenhamos o contato físico.
  • Social: A carência social, também conhecida como a “carência das pessoas” é a necessidade de estar junto a um grupo qualquer ou específico com o qual se pode sentir-se completo.

Essas três formas específicas de carência possuem soluções totalmente voltadas à perspectiva de cada uma delas e parecem não ter nenhum elemento em comum tão forte como uma origem em comum. Essa aparência inicial porém não merece prosperar.

Sobre os Possíveis Problemas

A Questão Física

A dificuldade inicial para um projeto que unifique as razões das carências parece ser a questão física. Afinal, se a mera questão de um corpo pudesse ser trazida como um elemento de cognição e complitude da carência, então é claro que os dois problemas são de naturezas diferentes (axiológicas) e que portanto não haveria uma base em comum para elas.

Mas, a simples ideia de concordar com algo assim não parece ser em nada sensato. Vejam bem, a questão da carência física não parece que se resolve com qualquer corpo. Na verdade, mesmo aqueles os quais possuam uma carência física muito forte, continuam a ter critérios para seus parceiros, o que descarta prima facie a ideia de que qualquer corpo serve.

Indo mais a fundo, se nós pudéssemos pensar unicamente na questão física dessa forma, bastaria injetar dopamina nas pessoas que manifestassem esse tipo de carência e eles logo seriam preenchidos por outras preocupações físicas de outras naturezas ou preocupações mais elevadas.

Entretanto, a descoberta da dopamina não matou a carência física e parece que ainda a possuímos. Isso nos dá a entender que esse tipo de carência se manifeste na solução física, mas que não possua apenas um elemento físico, mas um elemento valorativo psicológico anterior. Para ser mais direto, parece que a mostra física do problema é apenas isso: uma etapa da carência que convencionamos chamar de física.

A Questão Emocional

Olhando para a questão emocional, para um observador desatento, talvez fosse sensato ponderar que essa seja a questão predominante e que a questão social esteja subordinada a essa. Algo como estabelecer que temos sentimentos, aqui expectativas, sobre as atitudes dos outros e que queremos preencher isso em diversos níveis e que um deles é a forma social.

A grande questão disso parece ser totalmente removida do cenário quando trazemos exemplos em que não houve a questão social e que por tal, não houve a questão emocional. Um dos grandes exemplos disso é o de Victor de Aveyron. O padre que lidou com o caso explica:

todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em nenhuma ideia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se que não existe conexão entre sua alma ou sua mente e seu corpo”.

A ideia central aqui parece ser a de que não havendo o processo de socialização, não temos a criação de expectativas em relação a atitudes alheias e que esse processo é ontologicamente dependente do elemento social.

A Questão Social

Bem, a questão social parece elevar-se como uma pedra por sobre as outras que concernem diretamente ao indivíduo e esmagá-las. Mas, não acredito que seja esse o diagnóstico correto. Para entender o porque é importante entender que o processo de socialização trata-se de uma questão voltada ao repasse da informação anterior adquirida pela sociedade para o novo indivíduo e que o processo de resistência a esse ato é justamente o que forma a personalidade do indivíduo.

Nossa personalidade é a parte de nós que rejeitamos em relação ao que nos foi ensinado e na qual optamos por questionar e repensar essas possibilidades. Sendo assim, existe algo que é totalmente individual na questão social e que irá interferir na sociedade.

O problema é que a existência de um eu que não dependa da sociedade não irá minar a existência de fatos sociais, fatos esses externos, gerais e coercitivos em relação a nós. Nossa personalidade continua permamentemente a ser alvejada por esses fatos sociais dos quais a maioria irá compor uma estrutura hierarquicamente superior a nós mesmos chamada de superestrutura.

O processo de confirmação total do sujeito em relação as ideias sociais já apresentadas se chama alienação, na sua versão radical de coisificação e é característica de sociedades consumistas, onde somos levados a utilizar nossas ferramentas de manifestação do sujeito em matéria de produtos externamente e materialmente estabelecidos.

A grande questão parece ser em relação ao pedaço do sujeito que teima em não ser dominado pelo elemento externo e manifesta-se individualmente. Costumamos chamar a parte de nós que questiona o mundo de eu e a parte de nós que aceita o mundo de voz da consciência.

A existência dessas duas “vozes” é extremamente importante e é responsável por auxiliar nossa forma de interagir com o elemento físico da realidade. A grande questão aqui parece ser a de que a nossa voz social está profundamente questionando a nossa voz subjetiva e as nossas ações físicas, aqui uma espécie de voz biológica.

A solução

Eu ousarei afirmar de que a carência nada mais é do que o momento em que vendo que aquilo que nós chamamos de eu está distante em relação às outras vozes, em relação ao que esperam de nós e em relação ao que estamos alcançando fisicamente, nós passamos a ter carência. A carência então parece ser a tentativa de reaproximação de nós conosco mesmo.

Bem, então nos parece que as soluções, que realmente parecem solucionar o problema no curto prazo, são apenas elementos de fortalecimento da voz social e da voz objetiva em relação a voz do eu, é o momento que voltamos a colocar os inputs sociais para dentro de nós e assim tentar corresponder as expectativas sociais que a própria voz do eu possui em relação a si.

Mas, enquanto isso realmente resolve o problema a curto prazo, parece que a questão do longo prazo tem a ver não com a força dessas vozes externas de forma artificial, mas com uma harmonia entre elas. Criar essa harmonia é sobre possuir um elemento cotidiano que seja diretamente proporcional as expectativas em relação a si.

Isso significará encontrar algo tal como um caminho para as expectativas, elemento ideal do sujeito, corresponderem ao elemento real. Sem isso, nós continuaremos carentes. Me parece que a conversa sobre carência passa diretamente por uma conversa sobre sonhos, projeções e atitudes atuais.

Mas, entender quem é o sujeito atual para entender quais são as coisas sobre as quais se poderiam sequer estabelecer as ideias do ideal é uma missão muito difícil que será abordada em textos futuros e sobre a qual não parece haver uma solução final.

Autores:

Daniel Miorim
Malboro

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