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Breves considerações acerca da natureza do valor e da economia capitalista

I

Ao conjunto das dinâmicas humanas referentes à alocação de bens escassos, damos o
nome de mercado, sendo finalidade da economia o estudo de suas ações e seus princípios
norteadores.


Os bens de capital apenas têm valor porque os bens produzidos por eles são valorizados pelos
demandantes. O valor de uma mercadoria não depende da quantidade de trabalho nela contida, nem
da qualificação dos trabalhadores envolvidos em seu processo de fabricação, do contrário, como os
consumidores estão dispostos a pagar uma quantia maior de dinheiro pelo produto, faz sentido, na
visão do empreendedor, a contratação de mão de obra mais qualificada. A qualificação não
transmite valor à mercadoria. A maior valorização subjetiva, referente à mercadoria, confere valor à
mão de obra empregada em sua produção.


O valor não é algo contido nas mercadorias, ele é uma avaliação inteiramente subjetiva realizada
dentro das mentes dos compradores/consumidores dessas mercadorias. A mercadoria apresenta
características que a tornam propícia a ser valorizada por um indivíduo qualquer, contudo o valor
não reside na mercadoria e nem a mercadoria é valor.


A fonte do valor também não pode ser encontrada no trabalho, mas na expectativa de satisfação
individual. É um fenômeno psicológico, não sendo transmitido para um determinado objeto. O
trabalho, por si só, não cria e nem transmite valor, ele apenas possibilita sua criação se,
subjetivamente, o resultado desse trabalho também for valorizado pelo comprador/consumidor.


Adicionalmente, não se deve considerar o preço como correspondente, equivalente ou
proporcional a um período de produção, mas uma relação entre quantias de produtos distintos que
materializam preferências individuais no momento da troca. As relações estabelecidas entre
mercadorias diferentes não estão relacionadas ao trabalho empregado nelas, mas da
apreciação subjetiva referente ao trabalho realizado e seus resultados. A criação de valor não
se dá no ato da compra, mas os efeitos da valoração individual se mostram nela.


O valor subjetivo dado a um determinado bem de consumo não pode ser medido. Não
existe medida objetiva para valor subjetivo. Preços representam relações e preços são, por sua
vez, representados por quantias em dinheiro. O valor não pode ser medido quantitativamente
de forma direta, apenas transmitido sob a forma de preferências, quando em comparação,
portanto.


II
Preferência temporal pode ser entendida como a “preferência pelo agora, frente à preferência pelo
futuro.” Caso o indivíduo tenha alta preferência temporal, isso se traduz em uma maior propensão
pelo agora (consumo), quando comparado ao amanhã (poupança e investimento). A recíproca é
verdadeira.


A preferência temporal está no cerne do crescimento econômico. O que possibilita o crescimento
de uma economia são os somatórios dos processos de criação e transformação de A em B, por
meio do trabalho. Podemos, então, perguntar: como o empreendedor adquire os meios necessários
para realizar a produção? Por meio da renúncia ao agora. Explico: caso a totalidade da riqueza
presente em uma sociedade estivesse, de alguma maneira, alocada para o consumo, o que seria

produzido por essa sociedade? Nada, pois produção pressupõe renúncia ao agora para, depois,
colher seus frutos. Para haver produção é necessário haver riqueza não utilizada em consumo.
Munido da riqueza voluntariamente entesourada por terceiros, ou proveniente de seus
próprios esforços, o empreendedor constrói linhas de produção para fabricar os bens de
consumo demandados.


Os recursos que o capitalista toma para si não deixam de existir, eles apenas mudam de mãos, sendo
movimentados no mercado ao longo do tempo e sob novas formas, possibilitando futuros
incrementos de valor subjetivo, inclusive, em outros contextos. O empreendedor, por meio de trocas
formalmente estabelecidas, proporciona um caminho para a prosperidade mútua. O lucro
possibilitará, aos donos das empresas, consumir e investir, e, por esse motivo, deixará as mãos dos
capitalistas que o acumularam. O lucro de um empreendedor acaba fazendo parte da receita de
outro. Para poder demandar, você deve ter ofertado algo anteriormente. Em uma economia
capitalista, a mudança de proprietários configura-se como uma das características mais
fundamentais do dinheiro em circulação. A economia não é um jogo de soma zero.


Da preferência temporal se deduz o fato de bens futuros não apresentarem o mesmo valor que bens
presentes. Uma quantia X de dinheiro, no momento presente, tende a alterar seu valor em momento
futuro. A inflação pode interferir nesse processo valorativo, mas engana-se o leitor se apenas
considera a diferença sob esse ponto de vista. O valor tende a se alterar, também, por fatores não
contábeis, como os relativos à mudança na capacidade de satisfação imediata das demandas
individuais. Não devemos esperar, então, que bens futuros tenham o mesmo valor subjetivo que
bens presentes.


A diferença entre o valor de uso e o valor de troca do capital variável pode ser considerada como a
passagem de valores futuros para valores presentes e o lucro que advém da atividade
empreendedora, levada a cabo pelos donos da empresa, pode ser encarado como o retorno sobre o
capital investido.


Os frutos da acumulação de capital não ficam nas mãos do capitalista. O capitalismo não tende a
concentrar cada vez mais o capital em um número reduzido de indivíduos, pelo contrário, os lucros
obtidos no processo de criação de valor se movimentam por toda a economia, possibilitando que
outros empreendedores criem e expandam suas empresas, recomeçando o ciclo. A quantidade de
riqueza de um capitalista pode ser nominalmente dele, mas isso não significa que ela está disponível
para ele a qualquer momento, nem que ela está, de alguma forma, represada fisicamente.


Em um mercado com elevado grau de liberdade, os empreendedores apenas se manterão
competitivos caso, constantemente, atendam às demandas dos consumidores. Mesmo que o
capitalista aja por interesses próprios; mesmo que não tenha muita consideração com outras
pessoas; para ganhar dinheiro em um mercado com alto grau de liberdade, ele deverá satisfazer
desejos alheios.


O foco do capitalismo não está nas mercadorias, mas nas pessoas que terão seus desejos atendidos
por elas. Mesmo o mais avarento dos capitalistas não enxerga no dinheiro, e sim na satisfação
subjetiva, o seu objetivo final. O fim do sistema capitalista não é acumular capital, este é seu meio
de ação. O resultado não é o acúmulo pelo acúmulo, mas a utilização desse acúmulo como base
para o progresso em sua forma descentralizada e não uniforme.


O objetivo do mercado capitalista é o de atender demandas diversas, não de fazer julgamento de valor em relação às demandas atendidas. A função do mercado é a de atender os desejos de seus participantes, em maior ou menor grau, não importando que esses desejos sejam puramente fúteis ou prejudiciais aos próprios demandantes. O mercado pode ser utilizado de formas negativas e, inclusive, destrutivas, não podendo, no entanto, ser culpado por isso, afinal, ele está cumprindo o seu papel.


Entendido como um sistema de trocas voluntárias, acúmulo de capital e geração descentralizada de riqueza, o capitalismo mostrou-se capaz de impelir a humanidade a um nível de prosperidade nunca visto. A desigualdade apresenta-se como aspecto natural à civilização humana, não sendo produto do capitalismo. O sistema capitalista puro (de livre mercado) mostra-se como uma poderosa ferramenta de criação e distribuição de riqueza, porém, naturalmente, de maneira desigual.

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