A História da Economia

Gabriel Mendes
gabriel_vc_mendes@hotmail.com

A administração é um fenômeno tão antigo quanto as primeiras civilizações, sua necessidade surge com o advento da revolução proporcionada pela agricultura, “quando o homem foi domesticado pela plantação” ao trocar a liberdade do nomadismo por um lugar fixo ao que se podia chamar de casa (do latim, domos). Com a agricultura a humanidade se depara pela primeira vez com um estoque de alimento que viabiliza a explosão demográfica e a especialização que favorece o desenvolvimento de estruturas sociais estratificadas dando origem ao estado que irá administrar o excedente de produção.

O estado é, por conseguinte, o primeiro processador de informação que elabora as regras, mesmo que religiosas, para administrar e assegurar os resultados da produção. A escrita surge nessa esteira alargando a memória necessária para registrar os números cada vez maiores de registros do estado.

Uma vez que a especialização se consolida em várias regiões do globo, o comércio floresce e o intercâmbio de ideias e produtos flui na medida em que a burocracia o permite. O progresso do ímpeto comercial cresce e decai como em um gráfico de linhas, hora em tímido rumo crescente, como na era dos comerciantes fenícios, hora em sentido decrescente, como em épocas de forte centralização estatal.

Mas é no século XVIII que as estruturas sociais entram em ebulição, seja por ideias iluministas ou pelo próprio mercantilismo que engendra uma nova classe com poder econômico considerável: a burguesia. Essa nova classe de ambiciosos que levou o próprio Marx a reconhecer os méritos, mesmo que a contragosto, em relação às ideias inventivas que elevaram a humanidade a outro patamar. Foi essa classe que percebeu a necessidade de mudanças institucionais para gerir de maneira mais adequada a enorme riqueza fabricada pelas engrenagens da revolução industrial.

Algo novo estava por acontecer, era notável na atmosfera londrina e parisiense. As primeiras tentativas de sistematizar o espírito da época vieram das cabeças de médicos franceses, eles faziam analogias engenhosas; ao comparar a evolução econômica com os processos fisiológicos, os fisiologistas franceses igualavam a circulação sanguínea com a circulação do dinheiro, caso o sangue deixe de passar por alguma parte do corpo essa parte entra em estado de putrefação comprometendo a saúde do corpo inteiro. Algo semelhante acontece com o estado quando a riqueza não circula.

Curiosamente foi na França onde o primeiro banco a emitir uma moeda fiduciária apareceu pela primeira vez na história. Foi um escocês chamadoJ ohn Law quem conseguiu convencer o Duque Filipe II, que na época era o regente da França, a instituir uma moeda que não mais tinha lastro apenas no ouro. O valor da moeda seria assegurado através das terras e das dívidas do governo que agora passavam a ser negociadas abertamente para que pudessem circular e alimentar a economia como um todo, em outras palavras, o dinheiro não era um metal ou um objeto, mas uma crença em sua atividade geradora de riqueza.

Em sua fértil imaginação financeira, Law via o dinheiro “como uma ação, dinheiro não usado era nada – nada senão potencial de ação, dinheiro devia ser encarado como verbo não como substantivo.” E sua oferta não precisa mais estar acorrentada ao ouro disponível ou na dedução da balança comercial, sua disponibilidade se baseia na confiança de que o país continuará crescendo para honrar a dívida do título (que agora é um pedaço de papel) ofertado na instituição monetária.

“Ali estava um processo nivelador para desafiar a rígida hierarquia social que asfixiara a Europa por tanto tempo. Mulheres começaram até a se vender pela oportunidade de comprar ações.(…) Pessoas de todas as posições sociais fizeram fortunas até então inimagináveis. Um garçom ganhou 30 milhões de livres, um mendigo embolsou 70 milhões, uma lojista faturou 127 milhões. Uma aristocrática dama da sociedade deparou no foyer da ópera com uma mulher que ostentava em seu decote uma deslumbrante cascata de diamantes… ficou pasma ao reconhecer sua cozinheira e perguntou que diabos ela achava que estava fazendo ali. A cozinheira respondeu atrevidamente que agora era igual a qualquer aristocrata.”

A dinâmica extraordinária da economia francesa a partir deste momento ainda não estava inteiramente consciente dos efeitos danosos da expansão do crédito ao banco da França. O fenômeno inflacionário renasceria com toda a sua força. Mesmo que a relativa recente depressão causada pela febre das tulipas na Holanda tenha causado e acabado com fortunas da noite pro dia; mesmo que a inundação da prata espanhola tenha revigorado a economia de toda a Europa para logo depois subir os preços a uma porcentagem nunca vista antes. Nas palavras de Niaal Ferguson, em A ascensão do Dinheiro, sobre a explosão da oferta da prata espanhola:

“A beneficiária inicial foi, naturalmente, a monarquia castelhana, que patrocinara as conquistas. Os comboios de navios –mais de cem na época –que transportaram mais 170 toneladas anualmente através do Atlântico, atracavam em Sevilha. Um quinto de tudo que foi produzido era reservado para a coroa, e correspondeu por 44% de todas as despesas reais no auge do final do século XVI. Mas a maneira pela qual o dinheiro foi gasto, garantiu que a nova riqueza descoberta da Espanha provesse o continente inteiro com um estímulo monetário. O “duro”, a moeda espanhola de prata, que foi baseado no thaler alemão (por conseguinte, mais tarde, o dólar) se tornou a primeira moeda verdadeiramente global do mundo, e financiounão somente as prolongadas guerras que a Espanha lutou na Europa, mas também a rápida expansão do comércio da Europa com a Ásia.”

Em seguida ele, Ferguson, escreve sobre as consequências:

“O que os espanhóis não conseguiram compreender foi que o valor, dometal precioso não é absoluto. O dinheiro somente tem valor quando alguém está disposto a dar-lhe algo por ele. Um crescimento no seu abastecimento não tornará a sociedade mais rica, embora possa enriquecer o governo que monopoliza a produção do dinheiro.As outras coisas permanecem iguais, a expansão monetária meramente elevará os preços.”

Mesmo com esses eventos que viraram objeto de análise e exemplo de como as finanças não pareciam ser algo totalmente desprovido de elementos caóticos, mesmo com tudo isso os franceses não puderam conter a ganância. Quando o caos finalmente apareceu as pessoas ficaram atordoadas sem saber explicar o que, realmente, havia acontecido, a sensação era de que haviam sido enganadas. De fato muitos ricos investidores perderam tudo da noite pro dia.

Apesar de John Law administrar as finanças do estado, ele não tinha total controle de suas instâncias. Ele tinha plena consciência de que o dinheiro confiado à ele pelos acionistas deveria resultar em empreendimentos bem sucedidos que, com efeito, iriam atribuir real valor aos ativos. A oferta da nova moeda não parava de crescer, e ela teve um resultado benéfico pois acordou o ímpeto comercial francês aumentando o comercio de bens desde legumes, frutas a móveis. Só que esse processo não haveria por se estender ao infinito, logo ficaria claro que o que os franceses podiam produzir tinha um limite que não competia com a emissão da moeda.

Não adianta nada ter dinheiro infinito se a oferta de bens de consumo não cresce na mesma proporção que a oferta de dinheiro, os franceses preferiam então comprar os famosos títulos do banco francês. Com efeito, Law tentou refrear o frenesi que conduzia as pessoas a comprar seus títulos a um valor de 500 livres para chegarem a revende-los a um valor de 5000 livres.

Mas o tiro sairia pela culatra. Law decretou a desvalorização da moeda, seu objetivo era de que a moeda chegasse a valer 50% do valor que até então valia, mas a desvalorização seria gradual, fazendo assim com que as pessoas comprassem títulos para que o dinheiro ficasse retido no banco para que a inflação também ficasse retida.

“Lamentavelmente, o que Law não compreendeu foi que, ao fixar o preço das ações, estava para todos os efeitos transformando-as em dinheiro. Em vez de diminuir, a oferta de dinheiro de fato cresceu.” Além disso o Duque de Orleans foi extravagante ao pedir que o banqueiro imprimisse mais papel moeda, algo em torno de 200 mil livres para ser mais exato. Como dizer não para o regente da França? A persuasão de um monarca, seja regente ou não, é algo mais convincente que a própria razão.

Embora no século XVIII os fisiologistas tivessem consciência da circulação sanguínea, a anemia só seria descoberta dois séculos depois. O dinheiro francês não tinha a cor rubra de um sistema cardiovascular saudável. E é exatamente por esse motivo que os fisiologistas recebem essa nomenclatura.

Nos livros de economia é senso comum confirmar que os primeiros economistas de fato vinham de uma terra onde a cor do céu era um pouco mais pálida, numa ilha aon orte, onde as analogias eram mais mecanicista do que fisiológicas. Foi Adam Smith quem alteraria profundamente não só a maneira de pensar, mas as próprias relações econômicas não seriam mais as mesmas depois de tudo que o introvertido escocês tinha a dizer.

Não adianta nada ter um sistema monetário moderno que promova a eficiência comercial se o comércio não tem produtos disponíveis para tanto. É preciso compreender a realidade econômica de maneira metódica, com pretensão científica, assim como Newton havia feito com a mecânica inerente aos eventos naturais. Se o valor da produção de alguém aumenta é porque existe muitos dispostos a dar-lhe dinheiro em troca. Entender isso é fundamental. Como vimos, o problema da procura foi solucionado pela experiência traumática da França.

Mas, e a oferta? Esse é um problema moral do qual Smith se dedicou com extraordinária diligência. De acordo com que ele pensava, a industrialização fez emergir uma nova forma de demonstração indigesta da condição humana:

“O proprietáriade terras orgulhoso e insensível vê seus extensos campos e, sem um pensamento para as necessidades de seus irmãos, consome na imaginação toda a colheita que cresce as custas deles… A capacidade de seu estômago não tem proporção alguma com a imensidão deseus desejos, e não receberá mais do que o mais humilde camponês. O resto ele é obrigado a distribuir entre aqueles que preparam, da maneira mais saborosa, aquele pouco que ele mesmo faz uso… Os ricos apenas escolhem do monte o que é mais precioso e agradável. Eles consomem pouco mais que o pobre, e apesar de seu egoísmo e rapacidade natural, embora pensem apenas em sua própria conveniência, embora o único fim que propõem a partir das labutas de todos os milhares que empregam seja a gratificação de seus próprios desejos vãos e insaciáveis, dividem com os pobres o produto de todos os seus melhoramentos. São conduzidos por uma mão invisível a fazer quase a mesma distribuição das coisas necessárias da vida que teria sido feita, tivesse a terra sido dividida em porções iguais entre todos os habitantes, e assim sem o pretender, sem o saber, promovem o interesse da sociedade.”

Depois de desenvolver suas ideias sobre a moralidade como a mola propulsora para a ação, Smith prosseguiu em direção aos seus óbvios resultados. Infelizmente é o egoísmo que impulsiona as pessoas, a pessoa que se propõe a analisar as coisas de maneira idealista será no mínimo contraproducente. Sua esfera de ação fica restrita de acordo com aquilo que o mundo é não como deveria ser, e o mundo econômico parecia ser organizado de maneira autônoma, sem uma inteligência que externamente coordena suas partes.

Um indivíduo sozinho nunca será capaz de abranger a totalidade dos anseios humanos, ele nunca será capaz de criar simultaneamente a máquina à vapor, eletricidade, o computador e assim por diante, sua ação está inteiramente subordinada à divisão de trabalho da época. Seria difícil para Bill Gates criar o Windows caso tivesse que se preocupar com as necessidades básicas da vida, acordar pela manhã para caçar e acender uma fogueira seria uma experiência significativa mas não daria muito espaço para as ideias mais inventivas que o mundo já viu.

Enquanto eu me dedico a realizar algo algo deixo que outras pessoas assumam a responsabilidade pelas outras coisas da vida, como se fosse um contrato legado pela natureza ao homem: para que viesse a existir as ideias de Platão, as construções romanas, as obras de Michelangelo, as sinfonias de Beethoven, a internet, enfim, todas as extravagâncias já produzidaspela humanidade, o homem teve que aprender a cooperar e essa palavra exige especialização. Independentemente de não haver uma dedução lógica que explique o mercado de maneira científica, o fenômeno existe e dá certo, “apesardos protestos em contrário, até cientistas preeminentes procedem exatamente dessa maneira: o átomo provou-se uma ideia extremamente frutífera por mais de dois séculos antes que se encontrasse um vislumbre sequer de indício cientifico de sua existência.”

Com efeito, o dinheiro é o resultado inevitável de uma rede comercial que se complexifica até o momento das especializações. Caso eu seja sapateiro, por exemplo, e queira aproveitar uma garrafa de vinho no final do dia, vou até o produtor e troco um par de sapatos por vinho, a pergunta que naturalmente vem a cabeça é até quando o produtor irá aceitar pares de sapato em troca do seu vinho?

Pode ser que seus filhos e familiares precisem, mas, sinceramente, não tenho certeza se o número de pessoas descalças de sua família é equivalente às minhas vontades inebriantes. A instituição monetária acaba com esse problema. Como se o dinheiro fosse trabalho estocado. E como promover mais segurança para o dinheiro, maior poder de compra e evitar a desastrosa experiência dos tolos espanhóis e gananciosos franceses?

Smith argumenta que “O valor de qualquer mercadoria… para a pessoa que a possui… é igual a quantidade de trabalho que permite comprar ou mobilizar. O trabalho, portanto, é a real medida do valor de troca de todas as mercadorias.” Em outraspalavras, “promove-se crescimento econômico aumentando a produtividade. A melhor maneira de alcançar isso é pela divisão do trabalho.”

A produtividade advinda da divisão de trabalho era o suplemento de ferro necessário para a anêmica moeda francesa.Depois de Smith a Inglaterra continuaria na dianteira sobre as principais ideias econômicas até o início do século XIX. Na medida em que a implantação de fábricas e o comércio mundial se desenvolviam novos problemas apareciam.

Um êxodo extraordinário acontecia dos campos para os grandes centros urbanos, uma explosão demográfica nunca vista antes encheu as ruas de Londres que ainda não tinha estrutura condizente com a nova realidade. Quem andava pelas ruas de Londres não podia deixar de ficar horrorizado com as “extraordinárias façanhas da revolução industrial”, grupos de vinte ou mais pessoas amontoados em verdadeiros cubículos, 2.000 pessoas chegavam a dividir 45 banheiros, os dejetos eram descartados da mesma forma que 500 anos antes e o tratamento de água só viria a existir em 1829 e, mesmo assim, os testes de tratamento de esgoto só teriam início no ano de 1874!

O rio Tietê poderia até ser nadável se comparado ao Tâmisa daquela época. A dignidade humana foi posta a prova, as pessoas eram submetidas a escorchantes 16 horas de trabalho diário, isso quando havia trabalho. Os dirigentes, aristocráticos e os próprios burgueses começaram a ficar preocupados com o curso dos eventos, a taxa de delitos criminosos crescia e a desconfiança com o próprio sistema econômico surgia.

Muitos eram os que desconfiavam da nova economia liberal. Mesmo Smith tinha as suas ressalvas. David Ricardo e Robert Malthus, especialmente Malthus, eram bem pessimistas sobre a natureza do que se seguia. Malthus ficou conhecido pela ideia de que a humanidade estava caminhando em direção a superpopulação e a inexorável falta de recursos:

“O poder da população é tão superior ao poder da terra de reproduzir subsistência para o homem, que a morte prematura deve visitar sob uma forma ou outra a raça humana.’ A humanidade era impelida por duas forças irresistíveis: a necessidade de alimento e um desejo sexual insaciável. Em consequência, a população estava sujeita a crescer numa progressão geométrica (i.é. 2,4,8,16,32…). Os meios de subsistência, por outro lado, só cresciam em progressão aritmética (i.é. 2,4,6,8,10…). Malthus estava decidido a substituir o que chamava de reino da fantasia… pelas duras verdades da realidade. A economia devia ser empírica, não especulativa.”

David Ricardo pensou em uma solução que ficou conhecida como lei férrea que tinha como objetivo demonstrar que “toda tentativa de aumentar os salários era inútil, portanto os salários deviam permanecer no nível de subsistência”.

Cruel? Talvez. Mas a nós não é permitido anacronismos. A Europa já estava acostumada com a natureza da crueldade e subsistência, a revolução industrial só amplificou os horrores e contradições da sociedade, o que levou a economia naquele momento a receber o epíteto difamatório de “a ciência funesta”. Mas devemos ser justos, pelo menos com David Ricardo, isso porque:

“Como os padrões de vida se elevaram, o nível de subsistência aceitável também subiu. Atualmente a previdência social é paga no que a sociedade contemporânea considera um nível de subsistência. Algumas décadas atrás coisas como eletricidade, banheiros e encanamentos dentro de casa, a posse de aparelhos de televisão e até a possibilidade de manter um carro barato seriam todos considerados luxos. Hoje em dia, no mundo ocidental, tais coisas são vistascomo essenciais à subsistência. A advertência de Ricardo pelo menos abrandou sua lei férrea.”

Aparentemente não havia como reverter o processo de industrialização. O que se podia fazer era atenuar suas pulsões autodestrutivas. A produtividade era a saída. Com isso o trabalho passa a ser gradativamente visto como uma mercadoria. Se uma máquina de fiar tem produtividade cem vezes maior que meia dúzia de tecelões, obviamente o tecelão individual passará a ganhar muito menos de seus patrões que ainda não têm máquina de fiar, isso porque para competir com os preços dos tecidos mais produtivos ele terá que reavaliar toda a estrutura que atribui preço ao seu produto, o trabalhador, como parte dessa estrutura, provavelmente será o mais vulnerável.

Aumentar os salários “na canetada” não é a opção mais sábia. Ricardo foi bem detalhista em relação a interferência no mercado que vinha tanto daqueles que eram donos de terras (que eram maioria no parlamento) e defendiam a taxação de cereais vindo do exterior, como também das bem intencionadas tentativas de elevar o poder de consumo da classe trabalhadora.

“A elevação da tarifa sobre os cereais beneficiava os proprietários de terras, que obtinham um melhor preço sobre a sua produção. O preço do pão subia e assim era precisopagar salários maiores aos trabalhadores”, a decisão do parlamento se mostraria errada, e o tempo daria suas provas, as Corn Laws ainda demorariam a ser revogadas, elas tiveram “o efeito de reduzir os lucros dos fabricantes capitalistas, que tinham de pagar esses salários [mais altos]. Com isso os capitalistas tinham menos para reinvestir em suas companhias, o que significava que o crescimento industrial sofria.”

Dito isto, antes de dar fim a primeira parte da nossa resumida história da economia, vamos relembrar um pouco das ideias de mais um economista, e também filósofo, que compartilha muitas das opiniões discorridas até aqui: John Stuart Mill. De acordo com Paul Strathern, “Mill foi o primeiro economista a perceber que a previsão econômica nunca pode ser segura. Tudo que o economista pode fazer, na melhor das hipóteses, é indicar alguns resultados possíveis. E será sempre assim, seja qual for a quantidade de informação.”

Os frutos do capitalismo foram colhidos e analisados pelos economistas antecessores, as ideias revolucionárias de moeda fiduciária, divisão de trabalho, produtividade, investimento de capital e, sobretudo, a ideia de máxima liberdade para comerciar, pareciam indicar que a economia viraria uma disciplina matemática infalível tão logo as instituições fizessem seu papel. Assim todas as variáveis poderiam ser identificáveis e dispostas de maneira a estabelecer as equações que instituiriam de uma vez por todas a economia como uma ciência.

Mas, assim como os fisiologistas fizeram, nos seja permitido uma analogia. Os eventos econômicos são como os indivíduos, não tem como saber o se que passa na cabeça das pessoas, até mesmo a experiência socrática do auto conhecimento é desafiadora. E são justamente os indivíduos ignorantes de suas próprias identidades que vão configurar parte da equação econômica na variável da “oferta e demanda”, a equação estará sujeita a oscilações advindas de imprevisibilidades.

Além disso, os eventos que ocorrem na natureza não são inteiramente previsíveis. Um tsunami atingiu a usina nuclear de Fukushima, no Japão, uma das nações mais previsíveis do mundo. Catástrofes ambientais podem acabar com a produção não só do abastecimento de energia mas de uma linha de produção inteira. Talvez esse argumento se torne mais sensível em época de coronavírus.

Se tivermos que analisar a variável “crédito” de nossa equação econômica (que determina o valor da moeda, hipotecas, seguros, títulos do tesouro, etc.) estaremos mais perdidos ainda. Quem garante que as pessoas e nações honraram suas dividas? Usamos modelos estatísticos para prever esse tipo de coisa para dar mais credibilidade às cada vez mais complicadas equações. Há décadas todos os americanos pagaram religiosamente suas hipotecas, até que em um dado momento em 2007 descobrimos de maneira amarga que não era bem assim, e o mundo inteiro mergulha em uma resseção catastrófica por acreditar de mais nos pagadores de hipoteca americanos(nas instituições que vendiam essas hipotecas para ser mais exato).

A economia não sobreviveria sem a capacidade de colaboração e confiança entre os indivíduos (os neurocientistas diriam que a economia não sobreviveria sem a oxitocina). Portanto, as equações econômicas são muito mais complicadas do que as equações newtonianas, ampliar os horizontes da grade curricular da economia é uma emergência para a humanidade.

Existem infinitamente mais vetores a ser considerados do que simplesmente a força da gravidade, inércia, aceleração, reação, atrito e assim por diante. Os vetores da sociedade são caóticos, verdadeiros quebra-cabeças intelectuais. A teoria do caos “explica como a o agitar das asas de uma borboleta na floresta pluvial brasileira pode resultar finalmente num tornado no Kansas.”

Mill “compreendeu que as leis que governam a economia dizem respeito à produção, não à distribuição. A produtividade do trabalho, a da terra, a do maquinário –estas podem ser organizadas de maneira mais ou menos eficiente segundo certas leis objetivas.” Não é surpresa que nos dias de hoje gasta-se tanto dinheiro com publicidade e propaganda a fim de convencer e até mesmo moldar os desejos das pessoas, o fascismo foi particularmente bem sucedido nisso.

Com tudo que foi dito até aqui não é difícil ter a impressão de que a história da humanidade não é algo predeterminado? Fomos soltos como bastardos na natureza e o que fazemos não foi arquitetado previamente. Entre erros e acertos vamos descobrindo e redescobrindo o que é mais vantajoso, mas nem sempre o que é vantajoso mostra-se como algo benéfico.

O fato de não existir um mapa para guiar nossas ações nos joga em um mundo cada vez mais confuso, não é a toa que a condição humana sobrevoa em momentos de completa insanidade como nazismo, fascismo, comunismo e até mesmo o liberalismo, cristianismo, judaísmo, islamismo, e todas as narrativas pretensamente denominadas como santas ou corretas. Todas elas têm seus crimes registrados no tribunal da história.

As tentativas de organizar a sociedade de maneira científica e tornar a economia uma ciência propriamente dita são justificáveis e nobres, é justamente para atenuar o sofrimento da humanidade que a chama que desperta a vontade de prever o futuro e evitar os erros cometidos pelos “ismos” foi acesa por meio da revolução científica. Depois da extraordinária e assombrosa precisão com a qual Newton descreveu os fenômenos mecânicos todos tiveram a esperança de prever e, como é natural, dominar os eventos mais variados da natureza.

Mas, ainda, se é que é possível, não conseguimos transformar a economia em uma ciência propriamente dita. As tentativas para tanto nos deram poderosas ferramentas sobretudo nas áreas de estatística. E essas ferramentas melhoram significativamente a vida das pessoas, é tolice ou perversidade negar isso. Mas a condução no caminho à ser trilhado continua sendo determinada por pressupostos não científicos, por isso votamos em políticos, porque as direções de uma nação são determinadas em grande parte pelos valores difundidos, o que escolhemos valorizar e as virtudes que escolhemos cultivar é que vão determinar onde vamos chegar.

O presente texto foi livremente inspirado pela História da Economia de Paul Strathern.

Outros autores também foram utilizados para compor o texto:

Yuval Harari / Uma Breve História da Humanidade.

Niaal Ferguson / A Ascensão do Dinheiro.


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